"Esta é a música mais política de todas no disco. Fala de tortura e é sobre aquela época em que fazíamos redação sobre o país maravilhoso que o Brasil seria no futuro, e em que achávamos que os presidentes eram o maior barato". - Renato Russo, 1990.


Uma das mais belas canções da banda "Legião Urbana" talvez seja "1965 (Duas Tribos)", onde o tema tratado é a Ditadura Militar. A música fala inteiramente do pensamento da época, das ideias futuristas e do modo de vida da sociedade e do governo. O ano de 1965 foi o ano em que o Presidente Castello Branco decreta o AI-2 (Ato Institucional Número Dois): estabelecimento de eleições indiretas e cassação dos partidos políticos são suas principais medidas. 

Vou passar
Quero ver
Volta aqui
Vem você
Como foi
Nem sentiu
Se era falso
Ou fevereiro


Aqui, podemos ver a indecisão, podemos ver as indagações, o que o governo fazia. Deixar tudo no ar, sem resposta direta. Nos da esse modo de confusão. Não se sabe como ocorreu, se era algo falso, verdadeiro. Algo real ou enganoso. O que é real ou não?


Temos paz
Temos tempo
Chegou a hora
E agora é aqui.
Cortaram meus braços
Cortaram minhas mãos
Cortaram minhas pernas
Num dia de verão
Num dia de verão


A nação, o local, tem paz, tem tempo, porém, chegou a hora (da mudança) e agora (a mudança) é aqui, na nação. Podemos observar nessa estrofe traços da Ditadura Militar, traços de tortura: "Cortaram meus braços/ Cortaram minhas mãos/Cortaram minhas pernas". Analisando isso, podemos nos preparar para o que segue-se. 


Num dia de verão
Podia ser meu pai
Podia ser meu irmão


O "Podia ser meu pai/Podia ser meu irmão" Isso refere-se à tortura, propriamente dita, onde quando não obtinham respostas diretas, apelavam aos parentes das vítimas, amigos próximos, etc., onde até obter-se a resposta, não parava-se a tortura, chegando muitas vezes, à morte.

Não se esqueça
Temos sorte
E agora é aqui


Agora é aqui. O que é aqui? Isso é um aviso, talvez uma crítica, referindo-se que agora, o lugar de "ter-se paz" virou um lugar diferente. Agora é "aqui" nesse lugar. Esse lugar mudou, e tornou-se algo diferente (reforça-se que eles tem sorte! - Ajuda)

Quando querem transformar
Dignidade em doença
Quando querem transformar
Inteligência em traição
Quando querem transformar
Estupidez em recompensa


"Quando querem transformar", pode ser interpretado diretamente como "Querem transformar".
"Querem transformar" dignidade em doença. Transformar o digno, o bom, em algo ruim, uma doença, assim como "querem transformar" inteligência em traição, mostrando que estão tornando a inteligência traidora, mostrando que essa traição (podemos lembrar os que traíam a confiança dos outros "dedurando" o que ocorria aos militares). "Querem transformar" a estupidez em recompensa, mostrado as pessoas fracas, que vendiam seus segredos em troca de recompensa do governo.

Quando querem transformar

Esperança em maldição:
É o bem contra o mal
E você de que lado está?
Estou do lado do bem
E você de que lado está?
Estou do lado do bem.
Com a luz e com os anjos


Digamos: "Há quem queira transformar", esperança em maldição. Mostrando a esperança de uma nação (antigamente "de paz"), tornando-se maldição, algo ruim. A esperança sendo destruída, e deixando de se tornar boa. Pergunta-se o lado da pessoa. Todos estão do "lado do bem", mas qual lado é o "bem"? O Governo que nos mantém calados ou os revoltados? São nada mais do que pontos de vista.


Mataram um menino
Tinha arma de verdade
Tinha arma nenhuma
Tinha arma de brinquedo


Mataram o menino. Mostrando a crueldade. O menino queria se defender... Ele tinha uma arma de verdade, o que para muitos não seria nenhuma, não teria valor, afinal, era uma arma de brinquedo. Tinha valor e realidade para o menino.


Eu tenho autorama
Eu tenho Hanna-Barbera
Eu tenho pêra, uva e maçã
Eu tenho Guanabara
E modelos revell


Aqui pode ser um diálogo, ou então até uma forma de se dizer que ele (eu-lírico) tem os objetos. Ele tem todas essas coisas (coisas de criança) que custavam caro, como o autorama. Isso mostra a infância do menino, mostra também, diferenças sociais (pelo preço dos objetos na época), porém, acho que foi retratado para dar o ar ao menino, a infância, seu modo de vida.


O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país do futuro
O Brasil é o país
Em toda e qualquer situação
Eu quero tudo pra cima
Pra cima
Pra cima


"'O Brasil é o pais do futuro' dizem os ecos. É um país que será do futuro, e não do presente (como dito na música). É um país que crescerá."
Além de mostrar a situação do país, podemos observar, que mesmo com toda a situação em que se encontram,  numa sociedade sem esperança, ele (eu-lírico) quer "tudo pra cima", ou seja, quer tudo de novo, feliz, revirado. Quer a esperança que foi perdida.






Postado e escrito por: Eduardo Rezende


15 comentários to "Interpretação: 1965 (Duas Tribos)"

  • Muito bom, amei a descrição,tinha algumas partes que eu tinha dúvida e ficou muito claro x)

  • Legal sua interpretação.. Mas muitos aspectos eu vejo de forma diferente ( o que é normal tb pontos de análises distintos sobre uma mesma obra)

    exemplos:

    "Eu tenho autorama
    Eu tenho Hanna-Barbera
    Eu tenho pêra, uva e maçã
    Eu tenho Guanabara
    E modelos revell..."

    são objetos infantis (brinquedo, desenhos, paisagens..) que o "Estado Militar" oferece as pessoas pra mostrar como é bom o lado do governo. Como a ditadura pode ser "bom" para as pessoas..

    "...O Brasil é o país do futuro
    O Brasil é o país do futuro
    O Brasil é o país
    Em toda e qualquer situação
    Eu quero tudo pra cima
    Pra cima..."

    Essa parte o 'eu-lírico' é o governo! é o discursos ufanista de "Pra frente Brasil" pois da nossa maneira (discurso dos militares) tudo será maravilhoso..

    Bem, é isso! abraços! E Viva Legião Urbana!

  • Acho interessante seu ponto de vista, e realmente daria a impressão de governo-pão-e-circo. Mas mesmo que isso nos dê a ideia, convenhamos de que ambos se entrelaçam e que, como eu disse, completando a sua, os objetos custavam caro, para um país que não estava na frente, não estava "pra cima".

  • Obrigado pelas opiniões!!!

  • Enfim, essa ideia de assassinato ta meio vaga no contexto de ditadura, mas Renato faz essas coisas frequentemente: Fala de mais de uma coisa na mesma canção.
    Queria saber da sua opinião a respeito ....
    Abraços ...e bom trabalho!

  • Muito massa teu blog Eduardo! De verdade.
    Sim, concordo tb que é uma critica sob a Ditadura. Mas interpreto aspectos diferentes sobre o assunto. Essa musica pra mim é divida em 2 partes: Uma é A CRITIC DIRETA AO REGIME , e a outra O ASSASINATO DE UMA CRIANÇA INOCENTE – esse segundo aspecto é mostrado de forma não linear.
    Primeiro vou falar sobre a critica a ditadura:
    Temos paz
    Temos tempo
    Chegou a hora
    E agora é aqui.
    Cortaram meus braços
    Cortaram minhas mãos
    Cortaram minhas pernas
    Num dia de verão
    Num dia de verão
    Essa coisa de “Chegou a hora ...” acho q é um chamado à luta, a uma revolta.
    “Cortam meus braços ....” acho que ele não queria passar a ideia literal de multilações por tortura, mas que a ditadura IMOBILIZOU O CIDADÃO por instaurar o AI-2 – nela inúmeros direitos civis são cortados. Essa estrofe tem a ideia semelhante a da expressão “quebrar as pernas “ de alguém : deixar ela se ação.

    “Não se esqueça
    Temos sorte
    E agora é aqui
    Quando querem transformar
    Dignidade em doença .... até
    Estou do lado do bem.
    Com a luz e com os anjos”
    A ideia do “Agora é aqui” volta, dizendo que esse é o momento de tomar uma ação. Ele realça que lutar agora é uma batalha “do bem contra o mal”, onde os vilões estão deturpando valores ao seu favor.
    Agora vem a parte do assassinato. Se vc emendar todos outros trechos que não citei agora, note que é uma narração não linear, Vou tentar por aqui na maneira linear, como interpreto:

    Mataram um menino
    Tinha arma de verdade
    Tinha arma nenhuma
    Tinha arma de brinquedo

    Podia ser meu pai
    Podia ser meu irmão
    Vou passar
    Quero ver
    Volta aqui
    Vem você
    Como foi
    Nem sentiu
    Se era falso
    Ou fevereiro
    Parece que mataram alguém por perto, o narrador ta correndo atrás pra ver. Aí ele pergunta pra alguém na multidão o que foi e respondem que foi “tão rápido que nem sentiu”. Depois descobre que o menino tava brincando com uma amra de brinquedo, deve ter sido confundido por algum militar provavelmente.
    Não sei o que Renato queria dizer com todos aqueles brinquedos que ele diz que tinha no final. Mas é o trecho que eu mais gosto =)

  • Olá meu caro Helder!
    Achei muito interessante seu ponto de vista! Gostei muito do que pensa sobre o assassinato de uma criança, e realmente isso faria sentido, agora sobre o outro ponto, dei muito enfoque à minha principal opinião ignorando outros pontos, e realmente o seu ponto tem sentido, em chamar alguém pra lutar.
    Espero que continue sempre presente, seja sempre muito bem vindo!! E obrigado, a leitura do trabalho é a força que nos move.

  • Um deleite, como grande admirador da obra da Legião Urbana, encontrar este blog maravilhoso. Parabéns pelo trabalho.

    Sobre a música gostaria de acrescentar algo que, apesar de se tratar de datas distintas, o Renato tenha tentado ressaltar.

    Em 1968, um estudante secundarista foi morto durante um confronto entre a polícia no restaurante Calabouço. Seu nome: Edson Luís de Lima Souto.

    A morte dele foi um marco na ditadura e o Rio de Janeiro parou no dia do enterro. Os cinemas da Cinelândia amanheceram anunciando três filmes: A noite dos Generais, À Queima-Roupa e Coração de Luto.

    Muitos cartazes foram colados na Cinelândia. Uma delas dizia: Mataram um Estudante. Podia ser seu filho.

  • Completando meu comentário: Edson Luís foi o primeiro estudante assassinado na Ditadura.

    Era apenas uma criança. "Tinha arma nenhuma".

  • Musiqmax, acredito que Edson Luis não era só uma criança, era um revolucionário. Mas o que o Renato tenta passar é que o menino é o povo, que pensava ter alguma maneira de se defender, porém, não tinha, era tudo falso

  • Eu tenho autorama
    Eu tenho Hanna-Barbera
    Eu tenho pêra, uva e maçã
    Eu tenho Guanabara
    E modelos revell

    acredito que Renato esteja fazendo referência à política de substituição das importações implementada durante a ditadura... Se não me engano tem um decreto de 1965 que altera a tarifa alfandegária. Ou seja, esse trecho faz uma descrição irônica daquilo que "temos" graças ao "milagre-econômico/ política econômica dos militares.

    Hanna-Barbera era um estúdio de animação dos Estados Unidos, tipo Walt Disney e Warner Bros... A citação parece ser uma alusão à cultura pop americana e a disseminação do "american way of life" no período retratado na canção à la Carmem Miranda e Zé Carioca.


    Alguém saberia acrescentar informações sobre os modelos revell de que Renato fala?

  • Muito bom. So nao acho q sejam meros pontos de vista. Nessa epoca, opiniao era crime. E o terror verde oliva matava por isso. Pior, torturava. Mas o povo brasileiro parece q nao aprende. Citando Cazuza... eu vejo o futuro repetir o passado. O ' povo' quer q a
    DM volte... povo burro!

  • Acho que o menino pode ser o primeiro estudante morto, mas pensem cmg por um momento... quando ele fala do menino, ele fala na terceira pessoa, uma referência de esse alguém não é ele, é alguém que morreu e talz... quando ele fala do "eu tenho" ele se refere aos militares... pode ser pela absorção do jeito americano de ser e pode-se deduzir isso pelo "eu tenho a guanabara" se não me engano o RJ pega a guanabara durante a ditadura e isso mostra como eles queriam conquistar a gente nos cegando, tentando nos alienar com os produtos americanos e tudo mais... outra coisa é que eu queria concordar com um dos comentários anteriores que fala que no começo eles tão querendo ver é o menino morto e depois eles falam que ele estava armado... como rumor mesmo coisa que a ditadura se amarrava fazer... falar que tava armado e talz só pra matar rs bom só isso mesmo... adorei a análise do site... ;)

  • ESTOU ESTUDANDO E GOSTO MUITO DE TUDO ISSO DESSE SITE

  • J0G0 E CRIPT0GRAFIA IA I LEGIA0 URBANA ESTAM0S T0D0S DENTR0 DE UM GL0B0 DA M0RTE C0M AS M0T0S APR0VEITEM

Postar um comentário

Comentem aqui o que acharam ou o que pensam sobre!