Curioso perceber uma Legião no final dos anos 80, com seus anos na adolescência e juventude, cantando versos de "somos tão jovens", para um cantor que se esgoela e se agita em um palco...
Era assim com todos os shows em que "Tempo Perdido" era tocado, e o público ia à loucura com o hino da Religião Urbana.
Fechando o primeiro lado do segundo álbum da Legião ("Dois"), "Tempo Perdido" é a sexta faixa do álbum, e foi divulgada pela primeira vez em 1986, e até hoje, tantos anos depois, é impossível não homenagear Renato Russo ou a Legião em si, com essa música, de um tempo em que eles eram tão imaturos, e não saberiam o sucesso que acabariam tendo... De um tempo que eram tão críticos e tão jovens...

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...

Essa música não é muito simbólica ou própria, é claro que é uma letra crítica, mas é bem exposta e bem fácil de ser analisada. É um diálogo entre a primeira pessoa com ela mesma e com uma segunda.
Essa primeira parte, Renato faz uma reflexão literal de tempo perdido. Todos os dias, quando acordamos, não temos mais o tempo que passou, porque todos os segundos da noite anterior, ficaram num marco do passado, mas mesmo assim, não tendo como ter o tempo que passou, tem o tempo todo do mundo. Interessante pensar no tempo que Renato descreve através de "dormir". Dormir, é deixar de estar conectado no mundo, onde o tempo passa e você não sente diretamente... dormir poderia ser substituido à cada piscar dos nossos olhos, ou a cada mudança de ponteiro no relógio ou em cada décimo de segundos.

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder...

Aqui, a Reflexão não está formatada em crer que o tempo passou, e que ele passará, mas na evolução como ser humano enquanto o tempo passa...
Todos os dias, antes de dormir, lembrar o que é relevante e importante de melhorar, esquecer o que não nos faz bem e não mudará em nada nossa vida, tudo isso relacionado ao que passamos, e sempre seguindo em frente, afinal, não temos tempo à perder... O relógio passa com seus ponteiros e o tempo escorre por eles, não devemos perdê-lo! (...)

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E Selvagem! Selvagem!
Selvagem!...

Nestes versos, Renato pela primeira vez não se refere ao tempo diretamente.
O suor sagrado derramado pelo trabalho árduo que o tempo consome, é mais belo, mais honroso, mais idôneo, que o sangue amargo e podre, sério e selvagem de quem os manda, de quem eles devem obedecer. Não critica patrões, mas os donos das leis.

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos...

Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo...

Essa parte, Renato dedica praticamente todos os versos pra terceira pessoa.
É bem simples, bem direta e não carece de análise, crendo eu, que seja algo mais próprio, mas que todos conseguem entender perfeitamente. Renato se refugiando nos braços de alguém, e esperando ouvir que tudo irá passar, e que eles têm o próprio tempo de agir, sendo portanto, corredores contra o tempo.

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora

O que foi escondido

É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido

Somos tão jovens...
Tão Jovens! 
Tão Jovens!...

Essa parte, creio eu reforça novamente a ideia base de toda a música e principalmente dos versos anteriores.
"Não tenho medo do escuro/Mas deixe as luzes acesas" - levando pra um lado simbólico e pouco lógico da minha parte, como a noite, se referia à o tempo ser passado, o escuro é o efeito da noite, o tempo que se passa. Ele não tem medo do tempo se passar, mas prefere evitar ele (ele não tem medo do escuro, mas quer as luzes acesas).
"O que foi escondido é o que se escondeu", se referindo talvez, de uma forma crítica, aos sentimentos que do dia pra noite dizemos já não existir, como se fosse culpa de algo diferente, e não de nós mesmos, ou até criticamente, do dinheiro do povo roubado por políticos e terceiros.
A mesma filosofia pra promessa. Ninguém cumpre promessas e do dia pra noite elas se desfazem, como se o erro fosse dos outros, e jamais nosso, de ter o caráter de encarar decentemente nossas palavras.
___

O tempo passa, e muitas vezes não aproveitamos direitamente... perdendo-o.
Por mais que percamos oportunidades ou portas que o tempo mesmo pode abrir, nada é perdido. Nada é tempo perdido. O tempo nos mostra coisas, nos esconde coisas, nos faz refletir. Ele nunca é perdido, nem quando julgamos que o perdemos, porque de certa forma, acabamos aprendendo com outras situações, que não teriam tido os mesmos efeitos caso escolhêssemos o comodismo que o tempo e a sociedade nos dão.


Texto e análise: Eduardo Rezende.


Existem músicas da Legião Urbana que conseguimos identificar com facilidade que álbum elas pertencem, com "Tédio Com Um T Bem Grande Pra Você", isso é muito explícito. O ritmo rápido, a letra simples e direta desprendida de simbolismos próprios, obviamente nos remete ao terceiro álbum da Legião, "Que País É Esse", cuja faixa 3 de autoria de Renato Russo, é a música à ser seguidamente analisada.

Moramos na cidade, também o presidente
E todos vão fingindo viver decentemente
Só que eu não pretendo ser tão decadente não

Tédio com um T bem grande pra você

A crítica nesta parte é muito presente, podemos notar que Renato está menosprezando o valor da cidade de uma forma interessante. "Eles" moram na cidade, e também o presidente, todos fingem viver de bem, na paz, e ele, como um jovem punk que se pergunta "que país é este?", não quer ser tão decadente, tanto tendo que dividir espaço com o lixo político, quanto viver na falsidade da cidade...Um tédio enorme, com um T maiúsculo e grande pra você, jovem, que não tem o que fazer, numa cidade de mentiras...

Andar a pé na chuva, às vezes eu me amarro
Não tenho gasolina, também não tenho carro
Também não tenho nada de interessante pra fazer
Tédio com um T bem grande pra você

O tédio nestes versos é mais do que explícito. Podemos notar que Renato, de uma forma, assumindo o caráter adolescente da época, mostra como o círculo de tirar-se o tédio da juventude funcionava. O tédio de ter que andar na chuva, as vezes legal, as vezes não, não ter carro e nem gasolina, e nem nada de interessante ou realmente nada para se fazer. 

Se eu não faço nada, não fico satisfeito
Eu durmo o dia inteiro e aí não é direito
Porque quando escurece, só estou a fim de aprontar

Tédio com um T bem grande pra você

Novamente, o jovem se encontra sem nada pra fazer, e o tédio novamente se repete. Podemos notar que a letra é muito repetitiva, apesar de ser pequena, mas a mensagem que ela passa é interessante. A política é abandonada, apenas os primeiros versos ressaltam isso com realeza e os últimos versos, finalizam de uma forma simples novamente, e podemos concluir a mensagem contida: O jovem se encontra sem ter o que fazer e o tédio gira em torno de sua realidade social, a falta de preocupações, a falta de oportunidades, a falta total de um sistema voltado pra ele, e claro, para a presença de um tédio que jamais é saciado. 



Análise e interpretação: Eduardo Rezende






"Era na época daquela novela (Vamp), que estava fazendo sucesso - acho que ainda está fazendo sucesso, porque eles alongaram. Tem essa crise no país, e tudo. Então, a gente fez a música. Essa foi a primeira letra. Bonfá fez a música, eu fiz a letra, e a gente juntou tudo. E era pra ser sobre a TV". - 1992.
O Teatro dos Vampiros (ou só apenas Teatro dos Vampiros), é apresentada no quinto álbum da Legião Urbana, V, em 1991. É uma letra um pouco simples, muito simbólica e humana e como a análise própria que se segue, é feita por alguém que infelizmente não teve conhecimentos de até que ponto a letra se cruza com a base da história de Vamp, analisei friamente para a parte social-política-humana. 

Sempre precisei de um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto.
E destes dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos

Imagino essa parte, algo reflexivo e próprio. Imagino que Renato neste ponto, quis se referir à ele e a tantos outros que sentem o mesmo que ele: sentem-se sozinhos, e que precisam de atenção. Não que não a tenham, mas que necessitam de alguém em algum momento. Diz que não sabe quem é e que não gosta do que desconfia do que seja. Não levo isso por um lado sexual, mas imagino que em Teatro dos Vampiros, é um conflito pessoal de existência. E que nesses dias tão estranhos, "fica poeira se escondendo pelos cantos", sempre levei esse lado pensando que ele reparava em pequenas coisas desnecessárias, erros próprios, desnecessários, mas algo além, ainda me perturba, completando que essas poeiras são problemas internos, que se escondem em cantos de seus sentimentos. 

Esse é o nosso mundo:
O que é demais nunca é o bastante
E a primeira vez é sempre a última chance.
Ninguém vê onde chegamos:
Os assassinos estão livres, nós não estamos.

De uma forma muito curiosa, Renato coloca uma crítica social nesses versos.
Diz de uma foram um tanto quanto sincera e em tom até "conformado", de que o nosso mundo espera atitudes que o que é demais, nunca é o bastante, que sempre esperamos mais do que já é muito, e que os atos errôneos, cometidos por pessoas humanas, como nós, são julgados e condenados, sem jamais darmos uma segunda chance para as pessoas. Renato compara tais atos como assasinatos.
Os assassinos estão livres, matamos pessoas a cada condenação, e as pessoas mataram, estão presas, é um paralelo de atos, como se os reais assassinos fossem os humanos que julgam humanos quando erram, fazendo então, um novo erro.

Vamos sair, mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas.

Essa parte, julgo que é de caráter jovem, e a falta de oportunidades.
Eles querem sair, mas não têm dinheiro, os amigos estão todos procurando emprego. Se procuram, é porque não têm, e se não tem oportunidades de emprego, é porque não tem economia, se não tem economia, não tem a busca para compra... Ou seja, um fato acarreta o outro que desmorona um sistema, voltamos sim a viver como há dez anos atrás - ainda hoje, como há anos e anos atrás - pois o tempo passa e os fracassos históricos permanecem nos deixando de herança péssimas conquistas e derrotas que nos desmoronam internacionalmente.

Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir.
Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir...
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas possam se encontrar.

Os jovens voltam em ação novamente. Desta vez Renato não desabafa, mas tenta conencer uma terceira pessoa à sair, ele só quer se divertir. Quer esquecer de seus problemas e ter algum lugar pra ir.
Já "entregaram o alvo e a artilharia", desistiram da caça, e do caçador, deixaram seus problemas de lado, compararam suas vidas, e esperam que um dia possam se encontrar, sejam por semelhanças encontradas, seja por diferenças que ambos tenham. 

Quando me vi tendo de viver comigo apenas
E com o mundo
Você me veio como um sonho bom
E me assustei

Não sou perfeito
Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber
E de pensar nisso tudo, eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir

Podemos unir esses dois momentos e analisar como o conhecimento de uma terceira pessoa e como as situações, nos exigem uma força maior e realizações maiores para nós mesmos. Quando ele se viu diante de um mundo, completamente só, a terceira pessoa lhe apareceu, e ele se assustou, ao ver que não é perfeito, ou completamente independente, essa parte não é crítica, pelo contrário, é para nos mostrar que quando imaginamos que estamos sós, estamos acompanhados, e que quando estamos acompanhados, podemos estar sozinhos.
A outra parte, o segundo momento, Renato se refere aos próprios defeitos, e que o real valor que nós temos, nunca é visto, e que as aparências falam mais alto e esquecemos os nossos ideais e sentimentos em uma sociedade fria que se importa com o exterior, de pensar nisso tudo, ele, homem feito, teve medo, refletiu, e não conseguiu dormir. 

Vamos sair, mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos estão procurando emprego
Voltamos a viver como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas

Vamos lá, tudo bem - eu só quero me divertir.
Esquecer, dessa noite ter um lugar legal pra ir...
Já entregamos o alvo e a artilharia
Comparamos nossas vidas...

E mesmo assim não tenho pena de ninguém...

Essa parte se repete, e novamente faço as mesmas palavras:
O tempo passa, e nada muda. Isso pode ser levado pro lado político e econômico, como citei, mas podemos também levar para diversos lados, inclusive o caráter próprio, como muitas vezes o tempo, que é a razão da evolução, passa e muitos continuam empacados em situações.
A ultima parte, troca-se de frase. Compararam as vidas, e nesse momento, imagino que não seja mais a comparação com a terceira pessoa, mas com o mundo todo. Quando você compara seus problemas com o mundo... e de repente não tem pena de ninguém. Cada um tem seu caminho, cada um tem seu problema, e devem resolver todos eles, cuidando do que semeou, e claro, arcando com suas consequências. Frieza, sinceridade? Talvez, mas pra um gênio como Renato, o individualismo social, onde ainda um mundo pensa que a primeira vez é sempre a última chance, não se deve ter pena de ninguém, pois todos erram, mas isso não é levado em conta, quando não somos nós os seres errantes e imperfeitos que são julgados. 


Análise e texto: Eduardo Rezende.


Interessante analisar e perceber que o modo com que Renato conseguia esconder muitas vezes, sua opinião ou as próprias emoções dentro de uma música, criando uma história totalmente alheia do que queria retratar, apenas deixando, alguns pontos que formam paralelos de comparação, um bom exemplo disso, além de Metal Contra As Nuvens, Daniel na Cova dos Leões, Andrea Doria e Clarisse, seria Soldados.
Soldados, ao contrário das outras músicas, e próximo apenas de Daniel na Cova dos Leões, é uma letra muito simbólica e que pode ser levada aos dois lados. Nessa postagem, mostrarei à vocês, leitores, o lado que Renato colocou nas entrelinhas, um lado próprio, despercebido. Um lado que deixa ao canto o pré-conceito de que há soldados na música, colocando sobre a luz, apenas o lado humano do cantor que apresentou essa música em seu primeiro disco, sendo ela, a faixa de número nove do álbum que levaria o mesmo nome da banda, Legião Urbana - lançado em 1985:
Nossas meninas estão longe daqui
Não temos com quem chorar e nem pra onde ir
Se lembra quando era só brincadeira?
Fingir ser soldado a tarde inteira?
Mas agora a coragem que temos no coração
Parece medo da morte mas não era então
Tenho medo de lhe dizer o que eu quero tanto
Tenho medo e eu sei porquê:
Estamos esperando.
Quem é o inimigo?
Quem é você?
Nos defendemos tanto tanto sem saber
Por que lutar.

O nosso senso comum ao ouvirmos uma música dessa, nos faz imaginar uma cena de guerra, onde se fala apenas de batalha, e a única batalha que Renato quis passar, foi um conflito pessoal...
O personagem se vê longe das meninas do grupo, ele diz que não tem com quem chorar e nem tem pra onde ir, e que analisa sua situação de agora, comparando de quando criança que era tudo apenas brincadeira. O ser "soldado" não se refere apenas ao vestir uma farda, mas à vestir um caráter que não é próprio e usar uma mentalidade que é forçada.
As meninas do grupo estão longe dos meninos, Renato ao se ver longe de figuras femininas, se depara com problemas pessoais e vê que não tem para onde ir nem com quem chorar, está sem um porto seguro, se depara com a pessoa de sua infância, de quando imaginava que ser soldado era apenas por brincadeira, não encarava portanto, as responsabilidades que passa agora, com a seriedade devida.
Mas agora a coragem que eles têm no coração, parece e ao mesmo tempo não parece, medo da morte. A coragem que eles têm, é de enfrentar sua covardia.
Ele tem medo de dizer à terceira pessoa o que lhe quer tanto, ele tem medo, e sabe o porquê, eles estão esperando. O "estar esperando" se refere à "alguém espera nossa força", "alguém espera nossa nobreza", "alguém espera atos que correspondam ao nosso caráter". Mas eis que surge o problema, quando seus atos são mascarados por uma pessoa que não é, e até mesmo, eles esperarem muito de si e saberem que não são o que deveriam ser.
Renato se depara vendo que analisa a terceira pessoa como um inimigo, uma afronta. Ela o perturba, mas não o querendo perturbar. Sua pessoa o incomoda, não querendo incomoda-lo nem ele querendo ser incomodado. E então, ele se depara, junto à terceira pessoa, vendo que não há lógica em se defenderem tanto e tanto sem saber o porquê de lutarem. "Porque se defenderem, se o que lutam é exatamente tudo aquilo que eles são?" (citação de Marcianos Invadem A Terra)

Nossas meninas estão longe daqui
E de repente eu vi você cair
Não sei armar o que eu senti
Não sei dizer que vi você ali.
Quem vai saber o que você sentiu?
Quem vai saber o que você pensou?
Quem vai dizer agora o que eu não fiz?
Como explicar pra você o que eu quis

Somos soldados
Pedindo esmola
E a gente não queria lutar.

Eis a parte que desmascara, literalmente, o nosso soldado.
As meninas estão longe de onde se encontram, tanto fisicamente quanto emocionalmente, ele se depara longe delas em ambos os pontos. De repente, ele o vê cair, podendo ser tanto pelo sentido dele aparecer, quanto do sentido dele ter uma fraqueza em batalhas, e ele se pegar amando e se perguntar o que sente, e se ver deparado sem ter o que dizer.
Quem vai saber o que você sentiu? Será que foi compatível com o que pensei? Quem vai saber o que você pensou? Será que será o mesmo ponto de luta que busco? Quem vai dizer agora o que eu não fiz? Deveria ter agido dessa forma? Como explicar pra você o meu real interesse? Conflitos de um soldado que se vê caído em campo de batalha.
A ultima parte, Renato nos deixa um grande ponto em quê se pensar. Justifica mais uma vez que são soldados, e que se encontram em uma situação que desfavorece a farda que usam. Encontram-se fardados pedindo esmolas, pedindo ajudas, no fundo do poço emocionalmente e socialmente, tudo isso, porque não queriam lutar, tanto pelo amor que um demonstrava pelo outro, quanto pela briga social que deveriam ter enfrentado, mas que o orgulho à farda vestida, e a máscara dura que ela os faz por, não os deixaram batalhar por mais uma bandeira.

Renato em Soldados, coloca o seu brilhante papel de ocultar um lado pessoal dentro de uma música que chama atenção primeiramente ao ponto de reais soldados. O soldado - caso não tenha ficado claro - seria ele, lutando, em um campo de batalha emocional, por outro soldado ferido, caído, que ele constrói um afeto mais do que esperava, e que por amor à sua farda, oculta tal sentimento, e se torna duro ao patamar que seu cargo exige, para não cair ao ponto de ter que pedir esmolas, de chegar ao fundo do poço


(esse vídeo traz uma interpretação muito boa da música)

Espero que tenham gostado, apesar de confusa, tentei colocar o ponto que sempre enxerguei dentro da música. Meu muito obrigado aos seguidores.

Eduardo Rezende, texto e análise. 




Apresentada como a faixa número 14, do sexto álbum da Legião Urbana, "O Descobrimento do Brasil", com uma letra reflexiva, simples e real, "Só Por Hoje" foi escrita por Dado Villa-Lobos e Renato Russo, e seu título é perfeitamente colocado com o tema que se trata a música, a dependência de substâncias e o não querer depender delas. O lançamento do álbum coincidiu com o início do tratamento de Renato para se livrar de dependências químicas. 

Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu espero conseguir
Aceitar o que passou o que virá
Só por hoje vou me lembrar que sou feliz

"Só por hoje" é uma frase da filosofia de grupos de narcóticos anônimos, que prega, resumidamente, a evolução que vai sendo adquirida com o tempo. A cada dia, um novo aprendizado, e tentar ficar longe "só por hoje", do que lhes faz mal, e por esses "hojes" e "hojes", conseguir ficar sem usar.
Só por hoje, Renato ou uma terceira pessoa, da qual, usarei o nome de personagem, não quer mais chorar, só por hoje ele espera conseguir aceitar o que passou, com suas atitudes, e o que virá, com os frutos colhidos por seu livre arbítrio e escolhas passadas, e só por hoje vai se lembrar que é feliz.
O "ser feliz" aqui, imagino eu, se refira ao "temos muita coisa que outras pessoas não tem", como por exemplo, ele se lembrar que apesar de tudo, é feliz porque tem gente em situações piores, como descritas em outras músicas.

Hoje já sei que sou tudo que preciso ser
Não preciso me desculpar e nem te convencer
O mundo é radical
Não sei onde estou indo
Só sei que não estou perdido
Aprendi a viver um dia de cada vez

Nessa parte, o personagem se aceita ser o que é. Ele sabe que ele é tudo o que precisa ser: um conjunto de escolhas, e o resultado de escolhas.
Não precisa se desculpar e nem tentar convencer ninguém que o mundo é radical, e que não sabe pra onde está indo, e diz que sabe que não está perdido. Imagino que ele se refere ao fato de que não precisa se desculpar por tudo o que aconteceu, porque sabe que tudo isso foi culpa dele mesmo, não apenas porque o mundo é radical, e que apesar de não saber onde está indo, sabe que não está perdido. Ele pode estar sem rumo, mas tem uma meta, um mapa e um caminho traçado por si mesmo, porque agora, ele aprendeu a viver um dia de cada vez. Aprendeu que a evolução se dá à cada dia, e que a afobação por querer tudo na hora, só causa imperfeições e brechas de erros.

Só por hoje eu não vou me machucar
Só por hoje eu não quero me esquecer
Que há algumas pouco vinte quatro horas
Quase joguei a minha vida inteira fora

Essa parte é muito reflexiva, e colocando-se no lugar do personagem, é mais do que entendível. Agora a pouco, ele dizia que estava se sentindo bem, e que a evolução estava indo de pouco em pouco, sendo alcançada... Agora ele não quer mais se machucar, não quer se esquecer, que há algumas pouco vinte e quatro horas, quase "jogou sua vida inteira fora". Um dos passos dos narcóticos anônimos é aceitar seus problemas. Pois bem, ele sabia que estava alcançando a "perfeição", e agora viu que quase teve uma queda em quase poucas vinte e quatro horas. Em pouco tempo, ele quase voltou à jogar sua vida toda fora. 

Não não não não
Viver é uma dádiva fatal!
No fim das contas ninguém sai vivo daqui mas -
Vamos com calma !

Só por hoje eu não quero mais chorar
Só por hoje eu não vou me destruir
Posso até ficar triste se eu quiser
É só por hoje, ao menos isso eu aprendi

Os quatro primeiros versos, justificam uma possível falta de esperança em motivos de recaídas. Viver é uma dádiva fatal, estamos sujeitos à cair em tentações e aceitarmos coisas que sabemos que não serão boas para nós mesmos. "No fim das contas, ninguém sai vivo daqui mas vamos com calma", Renato se refere à quem cai nesse poço - quase - sem saída. No fim das contas, ninguém sai vivo, porque o erro o matou, matou uma parte de sua vida, matou possíveis oportunidades, matou sua família aos poucos, seus amigos que ele poderia perder... o matou moralmente, socialmente e emocionalmente, mas com calma, ele consegue se reerguer, e tentar novamente evoluir aos poucos.
Só por hoje, ele não quer mais chorar de angústia, arrependimento ou vontade.
Só por hoje, ele não quer e não vai se destruir.
Pode até ficar triste, cair em abstinência ou se arrepender, por querer voltar à antiga vida em suas recaídas, mas só por hoje, ele aprendeu que só por hoje, ele conseguiu ser melhor. 


Análise e interpretação: Eduardo Rezende



Vinda do "As Quatro Estações", é apresentado na Faixa de número 10 uma das mais belas canções de amor que Renato Russo já conseguiu escrever. Não se prendendo à metáforas nem à enigmas ou simbolismos, Renato foi direto ao escrever um poema romântico que nos passa a ideia perfeita de um primeiro amor ou de lembranças fiéis de um tempo que não voltará.  Renato foi perfeito ao conseguir descrever um sentimento possessivo que temos aos outros e ao egocentrismo humano ao mostrar que sempre nos colocamos sobre os outros como se o resto do mundo nos devesse momentos ou palavras que sentimos a devida falta.
"Sete Cidades" é tão clara, tão simples e tão perfeito, e suas várias versões conseguem se apresentar cada vez, uma melhor que a outra. 

Já me acostumei com a tua voz
Com teu rosto e teu olhar
Me partiram em dois
E procuro agora o que é minha metade

A primeira parte é constituída da ideia citada anteriormente.
O desejo possessivo o faz ver que ele já se acostumou com a voz, o rosto e o olhar dessa terceira pessoa, e que agora, se sente partido em uma parte que não fica presente quando ela (pessoa) não está presente. A outra parte, é a outra pessoa, e ele procura por ela. 

Quando não estás aqui
Sinto falta de mim mesmo
E sinto falta do meu corpo junto ao teu

Meu coração é tão tosco e tão pobre
Não sabe ainda os caminhos do mundo

Quando ela não está com ele, ele se sente incompleto - como dito - e sente falta de si mesmo, e a falta do corpo da outra pessoa junto ao dele, como se eles se encaixassem e formassem algo uno. 
Renato compara o seu coração à algo tosco e pobre, por ele ainda não "se sentir maduro", e não saber os caminhos do mundo. Essa parte, da maturidade do sentimento, se refere à maturidade de se sentir sozinho quando não está completo. O sentimento dele o faz sentir bobo, quando se depara sozinho e vê que cada um tem sua vida, mas que ele gostaria de estar 24 horas por dia com sua pessoa amada. 

Quando não estás aqui
Tenho medo de mim mesmo
E sinto falta do teu corpo junto ao meu

Vem depressa pra mim
Que eu não sei esperar
Já fizemos promessas demais
E já me acostumei com a tua voz
Quando estou contigo estou em paz
Quando não estás aqui
Meu espírito se perde, voa longe

Renato mostra o quanto a terceira pessoa o representa como um porto firme e seguro para seus sentimentos pessimistas e sua falta de coragem. Ela quando ausente, o mostra o quão fraco ele é, pois é ai que ele vê que tem medo até de si mesmo, e que a falta da presença dela, o deixa inseguro e com sede da presença dela.
A música é finalizada de uma forma muito clara: Renato ansioso, à deseja por todos os momentos. Ambos já fizeram promessas demais juntos, sejam elas de confiança em um relacionamento, sejam elas de um possível "amor eterno".
Ele já se acostumou com a voz dela, e quando está com ela, se sente em paz.
A presença dela o faz se sentir firme, preso em si... e em sua ausência, tanto a confiança, quanto a saudade (nem que for por pouco tempo) ou até suas lembranças, voam longe, longe, longe... 


"Sete Cidades fala do amor carnal. Sobre quem ama quem não está perto. É como se faltasse um pedaço", 1990, Renato Russo

Análise e texto: Eduardo Rezende





Muito poética, e muitas vezes ignorada por não termos a vontade e tempo de analisá-la, Sereníssima é apresentada pela primeira vez em V - o quinto álbum da Legião Urbana, sendo a faixa 6 e reapresentada no Acústico MTV também como a faixa seis. É uma letra que realmente me deu certo trabalho para uma análise fria, porque sempre prefiro músicas críticas, e Legião Urbana nos abre um leque fantástico de letras simbólicas que atiram para todos os lados, e dentro da parte romântica, abre o espaço para o amor para elas, eles, para a razão, para a desvalorização ou para o social e o poético, que junta tudo isso, e mais um pouco: 

Sou um animal sentimental
Me apego facilmente ao que desperta meu desejo
Tente me obrigar a fazer o que não quero
E você vai logo ver o que acontece.
Acho que entendo o que você quis me dizer
Mas existem outras coisas.

Nessa parte, podemos ver como Renato coloca o ser humano no sentido afetivo. Ele se coloca como um animal que se apega facilmente ao que lhe atrai, ora, o homem seria como um animal, que se coloca sob o instinto, que lhe faz ser atraído por alguém.

Sobre essa questão, é colocado o ponto: Renato diz que nem tudo o que a parceira (poderíamos colocar ela, ou ele em certas situações), gostaria que ele fizesse, ele gostaria de fazer, e que se algo assim acontecesse, ele traria em jogo, a lei do retorno. Ele "acha" (talvez até ironicamente), o que a terceira pessoa gostaria de lhe dizer, mas existem outros pontos de vista, e outros atos, se ainda estivermos falando de afeto. 

Consegui meu equilíbrio cortejando a insanidade,
Tudo está perdido mas existem possibilidades.
Tínhamos a ideia, mas você mudou os planos
Tínhamos um plano, você mudou de ideia
Já passou, já passou - quem sabe outro dia.
Esse conjunto de versos tão simples, são realmente fantásticos. 

Renato mostra um ponto interessante, somos o conjunto de sentimentos que ora pendulam para um lado, ora ao outro. Somos uma balança que conforme os pesos de nossos atos, devem pendular à certo lado. Por justamente cortejar a insanidade, ou seja, seguir e ser agraciado pela falta de bom senso, a falta de um bom senso, que o faz crer que tudo está perdido no mundo, mas que existem possibilidades de melhorá-lo, um mundo físico ou sentimental, criado por duas pessoas (como no caso), duas pessoas que tinham uma ideia e que ela, a companheira, mudou os planos, e que depois, adequaram a ideia em um plano, e então ela mudou de ideia. Imagino sempre essa fase, como um pré-casamento. Eles tinham a ideia de se casar, mas ela mudou os planos, como por exemplo, não querer se casar logo, e que quando decidiram se casar futuramente, ela mudou a ideia, para não se casar, pode não ser isso, mas essa frase me remete à crer em uma cena parecida, mas afinal, já passou, quem sabe outro dia, ela muda de ideia novamente e volta à crer na minha falta de bom senso?

Antes eu sonhava, agora já não durmo
Quando foi que competimos pela primeira vez?
O que ninguém percebe é o que todo mundo sabe
Não entendo terrorismo, falávamos de amizade.

Essa parte também é algo muito interessante de se analisar ao lado romântico da coisa, acendendo uma vela sobre uma mesa de questões escritas por Renato:
Antes ele sonhava com a pessoa, agora ele já não dorme, justamente por pensar na pessoa e perder seu sono buscando ela em pensamentos, coloca esses atos, como uma competição de quem busca mais o outro, ela buscando-o em sonhos e pensamentos, ou ele desenterrando-a de seus sentimentos para estarem juntos quando não fisicamente.
Os dois últimos versos se referem à um pensamento de rir na cara e da cara dos outros, o que ninguém percebe, é o que todo mundo sabe, o que ninguém nota, é o que todos justamente já sabem. Ninguém nota que ambos se gostam e se querem, e justamente compartilham amor em atos e sentimentos, e para a sociedade, Renato mostra um lado irônico, dizendo que não entende o terrorismo, pois eles falavam de amizade. Nas entrelinhas, a amizade seria o sentimento que o faz perder o sono, todas as noites. 

Não estou mais interessado no que sinto
Não acredito em nada além do que duvido
Você espera respostas que eu não tenho mas
Não vou brigar por causa disso
Até penso duas vezes se você quiser ficar.

Renato aqui, volta à disputa por quem persiste mais no amor de ambos, que a sociedade julga como uma amizade (lembrando que uso o ela mas que podemos nos referir ao ele).
Ele diz que não está mais interessado no que sente, e que não acredita em nada além do que duvida, ou seja, ele não tem certeza de que está realmente não mais interessado na pessoa, a sua dúvida o faz ver que não acredita em nada além do seu sentimento duvidoso. Ela espera as respostas que ele não tem, seja para o sentimento de ambos, com ela querendo atitudes dele ou por palavras, e que ele não brigará por isso, prefere ficar no comodismo... Ele espera atitudes dela, e ela espera atitudes dele, e disso ele não duvida. 

Minha laranjeira verde, por que está tão prateada?
Foi da lua dessa noite, do sereno da madrugada
Tenho um sorriso bobo, parecido com soluço
Enquanto o caos segue em frente
Com toda a calma do mundo.

Conseguimos entender o  racional para algo totalmente sentimental: a falta de lógica! 
Renato compara seus sentimentos à uma laranjeira, cujas folhas são verdes, e ele as enxerga prateadas. Para muitos, algo bobo, para um lado nas entrelinhas, algo de reflexo romântico. Ele enxerga tudo de uma forma brilhante e mais poética. A causa do seu sentimento que seria comum, e que ele enxerga de uma forma diferente e romântica, é a causa da lua, na madrugada. Ele perde sua madrugada admirando a lua, então compara seu amor, e vê que a causa (novamente) da perda do seu sono, se relaciona ao modo com que enxerga o afeto à terceira pessoa. 
De uma forma engraçada, ele mostra que fica confuso diante disso. Tem um sorriso bobo, desajeitado e chato como um soluço, e ele sorri, contente, admirando um amor passar por ele, fazendo de horas, parecerem minutos, enquanto o caos segue em frente, com toda a calma do mundo...


Análise e interpretação: Eduardo Rezende




Lançada em 1985, "Será" é o hino de uma religião de fãs que se esgoelavam para cantar juntos ao mestre de uma banda chamada Legião Urbana.
Sendo uma das músicas que mais puxou a vendagem de discos, "Será" é uma letra muito simples comparada às outras de rebeldia que Renato Russo viria à escrever. "Será é imbatível. Acho que tudo o que a gente vai falar na vida está naquela música" - Renato Russo, 1988.


Tire suas mãos de mim
Eu não pertenço a você
Não é me dominando assim
Que você vai me entender
Eu posso estar sozinho
Mas eu sei muito bem aonde estou
Você pode até duvidar
Acho que isso não é amor

A música sempre pôde ser levada por dois lados. Um lado amoroso, e outro lado, de uma experiência de vida. Imagino que o lado de experiência de vida seja maior, mas o lado amoroso não pode ser deixado de lado, visto que quem à escreveu foi o poeta das multifaces.
Ele (personagem) espera que a pessoa tire "as mãos dele" porque el não pertence à ela, ele é livre e não gosta de ser dominado, diz que pode estar sozinho, mas sabe aonde está, e que ela pode duvidar de sua certeza ou de sua confiança, mas ele crê que a dúvida não é prova de amor. Pro lado amoroso, essa parte se encaixa perfeitamente uma vez que ele não quer ter dono e quer ser livre no mundo, fazer e ir onde querer sem dar satisfação porque ele pode estar sozinho, fazendo o que bem entender. 


Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?

Uma dúvida cruel, que nos leva ao lado de experiência de vida.
Um adolescente inexperiente que não quer dar respostas e quer ser dono de tudo e de si, se depara com a realidade da vida. Será que é só imaginação? Tudo o que vejo, realmente é verdade? Será que nada vai acontecer? Será que pra sempre terei que viver no conformismo sem saber a verdade? Será que é tudo isso em vão? Será que realmente farei o que quero e no fim, serei o que quis? Será que irei conseguir vencer?


Nos perderemos entre monstros
Da nossa própria criação?
Serão noites inteiras
Talvez por medo da escuridão
Ficaremos acordados
Imaginando alguma solução
Pra que esse nosso egoísmo
Não destrua nossos corações

Aqui é uma parte interessante de se analisar friamente. 
O personagem em questão ainda em pergunta de será?, indaga sobre o possível ato de se perder entre monstros da própria criação, ou seja, se perder em pensamentos negativos criados por si mesmos, e que é possível  caso isso acontecer, perder noites inteiras com medo do que virá à acontecer, e por isso, ficarão acordados imaginando alguma solução pra que o egoísmo não os destrua, afinal, esse medo, diz respeito à apenas eles, eles, que são donos de si, e que julgam que o amor não é a dúvida, e que não pertencem à 
ninguém. 

Será só imaginação?
Será que nada vai acontecer?
Será que é tudo isso em vão?
Será que vamos conseguir vencer?

Aqui, novamente, os jovens se perguntam, afinal, o futuro é um tema que jamais teve respostas, só pertence à Deus! E a eles, apenas a realidade que vivem e que escolheram viver. 

Brigar pra quê
Se é sem querer
Quem é que vai nos proteger?
Será que vamos ter
Que responder
Pelos erros a maisEu e você?

Essa parte volta ao lado amoroso da coisa.
Brigar pra quê, se é sempre sem querer, jamais queremos brigar, então pra quê nos magoarmos?
Quem é que vai nos proteger se brigarmos, afinal, um protege o outro!
Será que vamos ter que responder pelos erros a mais juntos? "Como se já não bastasse meus defeitos, terei que dividir as soluções com você? Ora! Tire suas mãos de mim, eu respondo pelos meus erros!"

Análise da música: Eduardo Rezende


Vinda do "As Quatro Estações", "Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar" é a última faixa do álbum que leva o clima romântico também da faixa anterior Sete Cidades.

Assim como outras do álbum, apresenta uma letra fácil de se entender, sem muitas portas para análises, e como em Meninos e Meninas, apresenta em sua letra um simbolismo católico, relembrando às origens de Renato, de uma família tradicionalmente católica, além de Monte Castelo.
A letra segue-se abaixo do modo tradicional, com as análises feitas em versos que apresente algo curioso de ser ressaltado:

Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que então, eu não sabia
Amar e me via perdido e vivendo em erro
Sem querer me machucar de novo
Por culpa do amor
Mas você e eu podemos namorar.
E era simples: ficamos fortes.
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu
Quando se aprende a amar
O mundo passa a ser seu

Nos primeiros versos, Renato mostra a ansiedade de um amor.
Ele espera a pessoa passar por ali, e sabe então, que já não sabia amar, e vivia perdido errando e se machucando constantemente por culpa desse amor, talvez seja aqui, uma retratação de um amor que é buscado e esperado por ele, mas nunca conseguido ou conquistado. Renato amava alguém que tinha as esperanças que passariam por ali, a pessoa da causa de sua espera, e assume que sempre se via perdido quando o assunto era o amor.
Assume ainda que a terceira pessoa e ele podem namorar (futuro), e que é era (passado) simples, pois eles ficaram fortes com o tempo, e ainda assume que "quando se aprender a amar, o mundo passa a ser seu". Sem dúvida uma das mais tocantes frases e de filosofia profunda.

Sei rimar romã com travesseiro
Quero a minha nação soberana
Com espaço, nobreza e descanso.
Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido.
Começo a ficar livre
Espero. Acho que sim.
De olhos fechados não me vejo e,
Você sorriu pra mim

Nos primeiros versos, apesar de meio bobo, Renato mostra que com o amor, consegue rimar palavras que não se dá pra rimar. Romã e travesseiro não são palavras parecidas para se conseguir rimar... Pensando muito alto e analisando uma lógica colocando outras em mesa, romã é uma fruta constantemente usada em simbolismos e crendices para o feito de "simpatias", romã no caso, poderia levar ao amor, e o travesseiro a causa do amor - sexual, afetivo.
Eis a crítica em duplo sentido. Renato quer sua nação soberana, com espaço, nobreza e descanso. No sentido literal, uma pátria calma, com nobreza, não pobreza, não se referindo à ter mais ricos que pobres, mas ter apenas ricos e não pobres, e no sentido poético, de ter um lugar pra si, onde mandar, onde tenha coisas que ele cita ser de seu desejo, claro, tudo isso ainda no desejo de ter a pessoa.
Renato confessa novamente que ficou esperando o seu amor passar, e que já não estava mais sereno, estava agitado com essas idas e vindas e essa esperança de ver novamente essa terceira pessoa e diz que ficou muito tempo duvidando de si, por fazer o amor fazer sentido, por ele sentir amor e não conseguir estar calmo, sendo agitado e vendo que não corresponde à calma que o amor deve representar.
Diz que começa a ficar livre, começa a não pensar mais na pessoa, e ele espera. Imagina que dessa vez sim irá conseguir, já não esperará mais a pessoa e de repente... Ele fecha os olhos pro seu interior, esquece o que sente e vê que a terceira pessoa eis que passa e sorri pra ele...

"Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo,
Tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo,
Tende piedade de nós.
Cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo,
Dai-nos a paz."

"É uma situação onde a pessoa já levou tanta porrada que nem sabe... 'e me via perdido e vivendo em erro/Sem querer me machucar de novo/Por culpa do amor'. Quando eu estou apaixonado fica tudo uma maravilha. Mas tem que ser uma relação resolvida - a relação complicada, complexa e confusa deixa você mal de cabeça e realmente negativo. A música termina com aquela parte da liturgia católica cristã: 'Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo/Tende piedade de nós/Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo/dai-nos a paz'. Depois é que percebemos que o Cazuza já tinha feito uma colocação parecida em Blues da Piedade"(1990)


Interpretação: Eduardo Rezende



Vinda do álbum "Dois", da Legião Urbana, Acrilic On Canvas viria à ser uma letra pintada com formas poéticas de palavras sem rimas, mas que combinam com o ritmo desapressado e composto, do que viria à ser uma música de saudade e abandono, curiosamente sendo a segunda música dedicada à garota polêmica de "Eu Sei".

É saudade, então
E mais uma vez
De você fiz o desenho mais perfeito que se fez
Os traços copiei do que não aconteceu
As cores que escolhi entre as tintas que inventei
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três
Trabalhei você em luz e sombra

Renato a música toda, retrata sua solidão e espera dessa terceira pessoa que se foi, como sendo a causa principal para sua inspiração e vontade de pintar e/ou desenhar. Não podemos esquecer, nesse contexto simbólico, que sua irmã era uma artista e pintava quadros.
Renato no terceiro verso, mostra que fazia desenhos perfeitos da pessoa que o abandona, e que faz traços de ambos (quarto verso), dos atos que não fizeram.
Renato ainda menciona o fato de a terceira pessoa e ele fazerem uma promessa de um dia serem três, ou seja, constituir família. Renato diz que "trabalhou" com a terceira pessoa em luz e sombra, o que nos remete à três sentidos. O primeiro, de que ele, e ela, sempre estiveram juntos em luz e sombra, o segundo, que em "sombra" e "luz" ele pensava nela ou (em terceiro e mais possível, mas também não podemos ignorar os outros), de que ele usava todos os tipos de técnicas conhecidas para fazer essa tão sonhada e buscada pessoa que o abandonou. 
E era sempre,
Não foi por mal
Eu juro que nunca quis deixar você tão triste
Sempre as mesmas desculpas
E desculpas nem sempre são sinceras
Quase nunca são

Aqui ele mostra que a causa dela o ter deixado foi o fato dele "a ter deixado triste".
Ele jura que não quis deixar ela triste, e assume que sempre manda as mesmas desculpas... e sabe que desculpas nem sempre são sinceras, reforçando depois que quase nunca são...
Aqui, vejo de uma forma como se Renato sempre fizesse um ato errôneo que magoasse a terceira pessoa, e ela, em um momento, cansou-se e abandonou-o, então, ela o deixa e não aceita suas desculpas, porque já está farta delas, e sabe que essas desculpas clichês já não são sinceras, pelo contrário: vazias e decoradas.


Preparei a minha tela
Com pedaços de lençóis que não chegamos a sujar
A armação fiz com madeira
Da janela do seu quarto
Do portão da sua casa
Fiz paleta e cavalete
E com lágrimas que não brincaram com você
Destilei óleo de linhaça
Da sua cama arranquei pedaços
Que talhei em estiletes de tamanhos diferentes
E fiz, então, pincéis com seus cabelos
Fiz carvão do baton que roubei de você
E com ele marquei dois pontos de fuga
E rabisquei meu horizonte

Renato nesses versos começa à ser mais direto que anteriormente.
A tela seria a cama. Deixá-la pintada, seria deixar a cama bagunçada, sendo portando: Renato pinta a tela imaginando a cama que eles nunca chegaram à amaçar por se amarem sobre ela.
Renato depois, menciona os materiais físicos de parte dos objetos pertencentes à casa da amante,e  depois diz que com as lágrimas que rolaram por ela, ele destilou ou óleo de linhaça.
Diz que da cama arrancou pedaços simbolicamente, levando como objeto de inspiração aos moldes possíveis, que fez em tamanhos diferentes na madeira com estilete.
E Renato vai continuando sua comparação de objetos e coisas próprias da terceira pessoa, com objetos da pintura, sendo portando, as coisas da menina, o objeto de sua arte.

E era sempre, Não foi por mal
Eu juro que não foi por mal
Eu não queria machucar você
Prometo que isso nunca vai acontecer mais uma vez

E era sempre, sempre o mesmo novamente
A mesma traição
Renato nessas primeiros quatro versos, mostra novamente suas desculpas, tentando ser sincero (lembrando que ele mesmo diz que suas desculpas não eram sinceras), e depois diz nos versos seguintes que a traição era a mesma. Há quem diga que em "Eu Sei", o que fez o relacionamento quebrar-se foi que Renato não sentia atração pela menina, e talvez aqui ocorra o mesmo, a traição ocorre quando Renato olha para outras pessoas (não sendo apenas as meninas), e isso fez ocorrer o afastamento de ambos.

Às vezes é difícil esquecer:
"Sinto muito, ela não mora mais aqui"
Mas então, por que eu finjo
Que acredito no que invento?
Nada disso aconteceu assim
Não foi desse jeito
Ninguém sofreu
É só você que me provoca essa saudade vazia
Tentando pintar essas flores com o nome
De "amor-perfeito"E "não-te-esqueças-de-mim"

Podemos notar o quão difícil é para o personagem caracterizado pelo cantor, de esquecer essa pessoa. É difícil aceitar e mostrar aos outros que a outra pessoa já não está mais próxima, e então, ele se pega pensando em porquê ele se vê fingindo que acredita no que inventa, porque, afinal, ele inventa seus quadros e acredita que ela, a menina ou terceira pessoa, seria essa obra, seria essa "forma" que seria trazida à luz por suas memórias, suas ironias, suas raivas, suas lembranças e sentimentos internos e próprios.
Ele ainda diz que nada aconteceu dessa forma, porque ele criou sexo que nunca ocorreu, a confiança, a troca de amor recíproca... E nada foi desse jeito. Do jeito dele, ninguém sofreu.
É deixado claro que ela realmente faz falta, obvio, lembrando que ele faz quadros dela, e que ela faz ele pintar essas flores com nomes de amor-perfeito e não-te-esqueças-de-mim, mostrando que ele tinha um amor platônico pelas figuras que idealizava ser a pessoa de um amor que não deu certo.


Apesar de um pouco confusa, eis então a tão pedida Acrilic On Canvas (Acrílico sobre telas).
Análise e interpretação: Eduardo Rezende