Mais do que polêmica, mais do que causadora de pontos de vista, porém direta, "Meninos e Meninas", a dona da interpretação de hoje, é uma das que causa caminhos que se encontram quando o tema, se trata, justamente de meninos e meninas.
Como todos sabem, o líder da Legião Urbana era bissexual. Deixando isso mais do que abertamente em muitas de suas letras (que foram e serão apresentadas aqui), Renato Russo deixa bem claro em entrevistas que essa música se trata da bissexualidade, do gosto, e talvez, como ele mesmo diz uma "bandeira à favor da Igreja Católica".
Vou deixar as entrevistas no fim da análise, e em todas as partes da música, deixarei claro o meu ponto  de vista, baseado em pesquisas e em entrevistas deixadas em livros que possuo. Segue-se a análise:

Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui

Aqui, ele já começa a música mostrando quem é, e logo depois mostrará o que acontece ou o que aconteceu.
Ele quer se encontrar, quer ter certeza de quem é, mas não sabe onde está, nem dentro de si, nem socialmente, e pede pra terceira pessoa ir com ele procurar algum lugar longe desses problemas sociais que envolvem seu modo de vista, dessa confusão e desrespeito, de gente que assim como ele tem quase certeza que ele não é da Terra por apenas ter o gosto sexual diferente do que é "modelo".

Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas

Aqui, Renato esclarece o ponto anterior.
Depois de falar que gosta de São Paulo, de São João, São Francisco e Sebastião, Renato deixa bem aberto que gosta de meninos e meninas. O fato de colocar os santos no meio, Renato nunca especificou, mas fica bem claro em uma entrevista: "Não é uma bandeira pelo bissexualismo; aquilo é uma bandeira em favor da Igreja Católica. Eu também falo que gosto de São Francisco. Depende de como você vê a letra", Renato nunca negou que era cristão, e seguidor da Igreja Romana, e talvez tenha colocado pra dar uma leveza à crítica, mas isso fica claro depois.

Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer

Essa parte, poderia entrar em quando ele percebeu suas dúvidas.
"Vai ver que é, foi, e sempre será assim, essa dúvida vai continuar, e eu não sei se gosto, mas eu sei que gosto, de meninos e meninas", um possível pensamento, que se enquadraria nessa parte perfeitamente.
Renato deixa claro a indecisão de que "vai ver" é assim, e vai ser assim, que isso (sentimento) vai ficando complicado, pois ele vai se encurralando em dúvidas, e diferente, pois "só ele" deve pensar dessa forma.
Então, ele deixa uma coisa bem clara: Ele cansa de bater, e ninguém abre, ninguém cede nem tempo, nem opiniões, nem mente aberta para discutir e falar sobre isso, e então, por deixarem ele pra fora, ele sente frio, é poético e inteiramente simbólico. Por não deixarem ele entrar, acolherem suas dúvidas e sentimentos, ele fica lá fora, continuando no frio, sem apoio de ninguém, e depois disso, nem ele mesmo sabe o que dizer!

Te fiz comida, velei teu sono
Fui teu amigo, te levei comigo
E me diz: pra mim o que é que ficou?

Essa parte, completará a parte de baixo, e completa algum tempo depois, a parte anterior.
Renato foi amigo, velou o sono, foi amigo, confidente, levou com ele, aconselhou... e depois de tudo isso, o que é que ficou? Ele fez a parte dele, e as portas (propriamente ditas), fecharam à ele, bateram ela na cara dele, e ele ficou lá, no frio, enquanto tais pensamentos o assombravam.

Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está, e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem?

Renato diz à terceira pessoa, que se enquadra perfeitamente na sociedade (sendo os pais, ou uma antiga companheira, ou amigo, ou a própria sociedade):
"Me deixa ver como é bom viver!", me deixe ser livre!
Não é a vida como está, não importa se a vida está boa, mas sim, se as coisas estão indo bem! A vida é feita de momentos e devemos dar importância aos momentos, e não ficar buscando uma vida perfeita, sendo que podemos fazer tais momentos perfeitos!
Então vemos a parte que completaria a parte do "sentindo frio": "Você não quis tentar me ajudar/Então, a culpa é de quem?/A culpa é de quem?"."Você não doou seu tempo, não doou suas opiniões, seu palpites, e agora vem me crucificar? Calma ai! Você não quis tentar me ajudar da melhor forma possível. A culpa não é minha. Talvez seja sua, mas não é totalmente sua. Simplesmente sou, e pronto!". Acho que assim ficaria mais claro.

Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes

Renato canta em português errado...
Ele acha que o "imperfeito não participa do passado", isso parece soar como algo bobo, sem importância, mas se levarmos em conta o fato de que a sociedade imperfeita não está no passado, mas continua no presente, aí veremos que faz todo o sentido! Uma vez que a sociedade só evoluiu tecnologicamente, e não necessariamente moralmente ou eticamente (ou até religiosamente, como deixarei claro!).

Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar

Essa parte é bem simples:
Renato precisa respirar, precisa ter reais amigos, que não lhe fechem a porta.
Precisa ter dinheiro, precisa de carinho, afeto.
Ele mostra sua indecisão quando diz que acha que amava a pessoa, e agora acha que a odeia. Isso pode não ser necessariamente uma pessoa, mas um ato dela. O preconceito, a discriminação, os fechar-a-porta em sua cara e os não-querer-ajudar, mostrando que cada um preocupa-se apenas com seus próprios problemas.
Como ele mesmo diz, são pequenas coisas, e tudo deve passar. Isso se enquadra também, quando comparamos ao fato (como disse anteriormente) de decisões acarretadas na sexualidade: "Será que realmente É normal? Será que realmente SOU normal? Bem, são pequenas coisas... E tudo deve passar".

Acho que gosto de São Paulo
E gosto de São João
Gosto de São Francisco e São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas

Como essa parte já foi interpretada, acho interessante colocar e expor os fatos nela:
Renato diz: "Em 'Meninos e Meninas', é a primeira vez que falo, claramente, que gosto de meninos e meninas. Também não sei o que vai dar, porque começo a falar de santo, no meio da música, e vai embolar tudo. E o amor ao próximo? Jesus gostava de meninos e meninas. Não sei se sexualmente, porque, naturalmente, Ele era um ser evoluidíssimo. Ele era um ser totalmente espiritual.".

E deixo outro fato pra poder ficar exposto:
*São Sebastião é considerado o Padroeiro dos homossexuais.
*São paulo de Tarso, perseguia seguidores de Cristo até se tornar um. Talvez isso nos mostre que não podemos julgar, sem antes saber o que poderá vir depois... Talvez uma "conversão" de ideias, ou até uma clareação de opções.
*Renato em um dos shows (quem se interessar, a versão está no site de vídeos aberto), diz que a música foi feita para um ex-namorado, e brinca quando diz que quando isso foi revelado, a platéia ficou em silêncio.


Análise, Pesquisa e Interpretação: Eduardo Rezende


6 comentários to "Interpretação: Meninos e Meninas"

  • Só uma pequena correção: Renato disse em um show que "Maurício" foi feita para um ex namorado e a plateia se calou.

    Como já disse em outro comentário, em outro show ele desmente isso dizendo que na verdade Meninos e Meninas foi feita para um exnamorado, mas a plateia não se cala, muito pelo contrário, fica ainda mais barulhenta.

  • Realmente. "Meninos e meninas" é uma música que foi feita para um ex-namorado e além disso, para uma sociedade preconceituosa.
    Volte sempre, obrigado pelo comentário!!

  • Adorei a interpretação, muito bom ouvir a música toda e saber do que está se tratando. É muito mais profunda do que eu imaginava e agora gosto ainda mais. Em alguns trechos lembro antigos amigos que eu gostava muito e até considerava como irmãos, mas infelizmente me trataram super mal quando contei que sou gay...

  • Parabéns pela interpretação Eduardo! Gostaria apenas de acrescentar que quando Renato cita o nome dos santos, a meu ver ele quer dar o recado: "sou homosexual mas creio em Deus!" Desse jeito ele cobra da sociedade e religião direitos iguais.

  • Parabéns pela interpretação. Só uma visão diferente no trecho em que ele fala "acho que o imperfeito não participa do passado" na realidade ele fala do tempo verbal. O pretérito imperfeito é de um passado sem definição de passado concluído(amava, cnatava,...)diferente do pretérito perfeito que é ação concluída(amei, cantei,...). Na próxima estrofe ele diz "acho que te amava" conjugando o verbo no pretérito imperfeito, fazendo um link com a estrofe anterior "agora acho que te odeio"...ratificando a informação...não sabe se ama ou odeia.

  • vale a pena dar uma olhada nesta outra interpretação
    http://interpretacaopessoal.blogspot.com.br/2011/10/eu-gosto-de-meninos-e-meninas.html.

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