Vinda do segundo álbum da Legião Urbana, "Dois", "Música Urbana" é a terceira faixa do lado B do disco e é de letra crítica e que nos lembra muito a estrutura e ritmo do Rock internacional, que obviamente serviu de inspiração ao começo da banda. O álbum assim como a música, é lotado de críticas e letras que fizeram sucesso aos admiradores de músicas como essa, "Metrópole", "Índios", "Fábrica" ou então "Acrilic On Canvas" ou "Eduardo e Mônica", "Quase Sem Querer" e por ai vai.
A letra é simples, com coisas explícitas mas que devem ser analisadas, quando perguntado o que seria essa "música urbana". Segue-se a letra e a análise desta:


Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana,
Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres
cantam música urbana,
Motocicletas querendo atenção às três da manhã -
É só música urbana.

"Música urbana" antes de mais nada, seria a forma de protesto, a voz do povo ausente ou presente, as ideias para músicas, as inspirações e a forma com que uma noticia ou fato torna-se vítima de crítica ou de melodia.
A música urbana, está em todos os lugares: Nos telhados pelas antenas de TV, sintonizando e consumindo música urbana. Nas ruas os mendigos mostrando, fazendo e servindo de inspiração para músicas urbanas, e nas ruas nas três da manhã, com as motocicletas que querem chamar atenção, assim como a música urbana, que apela por novos ouvidos.

Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana
E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música urbana.
Nos bares os viciados sempre tentam conseguir a música urbana.

Nos quartéis e prisões, nas ruas fardados e em cadeias, os soldados e PMs vomitam a música urbana, pois desprezam e tem nojo dessa forma de protesto. Nas escolas, em contrapartida, as crianças aprendem a cantar repetidas vezes, a música urbana, como protesto ou como aprendizado; e nos bares, viciados (não necessariamente de bebidas) tentam conseguir música urbana, sendo por ela ser o único meio que eles entendem e o único que os entende, seja por meio de apoio, seja por meio crítico.

O vento forte, seco e sujo em cantos de concreto
Parece música urbana.
E a matilha de crianças sujas no meio da rua -
Música urbana.
E nos pontos de ônibus estão todos ali: música urbana.

Nessa parte, vemos a fonte de inspiração:
O vento forte, seco e sujo, paredes de concreto (indo e ligando diretamente com a cidade), parece música urbana, porque ela é urbana, ela é de onde o vento é forte, seco e sujo. Onde há concretos.
As matilhas de crianças-lobos, que matam pra comer e viver, vivem pra comer e matar, e comem por viver e por isso matam, está presente a música que é tão acolhedora, tão crítica e tão urbana.
E nos pontos de ônibus, onde todos esperam, onde estão pessoas diferentes e de lugares diferentes, está a música urbana, que não tem pra onde ir, e nem tem de onde chegar. Ela simplesmente existe por existir e pra quem existe e quer existir socialmente, criticamente ou busca uma vida, como os viciados nos bares, ou os futuros adultos que nas escolas aprendem a repeti-la.

Os uniformes
Os cartazes
Os cinemas
E os lares
Nas favelas
Coberturas
Quase todos os lugares.

Nos uniformes das escolas, dos alunos que repetem, e nos uniformes de PMs e soldados que vomitam e tem nojo, está a música urbana, assim como nos cartazes de busca, de prisão, de anúncio, nos cinemas com filmes liberados pelo governo, desde as favelas cercados por muros que isolam eles da sociedade e não da segurança, até às coberturas, que os isolam por segurança e não socialmente, em quase todos os lugares, do mais alto nível até o mais baixo, está a música urbana. Que não escolhe, não distingue, e existe por existir, porque nós, de favelas ou coberturas, precisamos dela.

E mais uma criança nasceu.
Não há mais mentiras nem verdades aqui
Só há música urbana.
Yeah, Música urbana.Oh Ohoo, Música urbana.

E mais uma criança nasceu.
Forte não? Passa a impressão de pouco caso, de que: "O que seria mais uma criança em meio à isso?" Nos lembra "Mais do Mesmo", mas de qualquer forma, essa criança nasceu... Nasceu nesse meio que não tem mentiras, nem verdades. Nesse meio cegado pela mídia que mostra, negado pelos cartazes, pelos cinemas, pelos uniformes, desprezados pelos PMs e tropas de choque, anunciados pelos ventos, pelos bares e pelos pontos de ônibus. Essa criança nasceu onde não tem certo nem errado. Onde não há pessoa boa nem má. Onde há qualidades e defeitos. Ela nasceu num lugar que é dominado por ela, Música Urbana.  



Análise e interpretação: Eduardo Rezende


1 comentários to "Interpretação: Música Urbana 2"

  • Imagino que a "música urbana" a que o Renato se refere é como uma síntese de tudo o que há de ruim na metrópole. No decorrer da música ele vai falando de cada aspecto em que ele encontra e ouve a "música urbana". Como um misto de injustiça, de sofrimento, de abandono.

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