Uma das minhas músicas preferidas, sem dúvida das críticas, uma das melhores, é "O Reggae"!
Oriundo do álbum que entrou pra lista dos "100 maiores discos da música brasileira", "O Reggae" vem do crítico "Legião Urbana", o primeiro álbum da banda que traria sucessos e puxaria vendas e fãs para os incontáveis sucessos.
Uma letra crítica que nos remota os tempos de Collor, simples e exposta. Foi isso o que fez da música, ser uma das melhores, ao meu ver, além de sua estrutura, além do ritmo que combina com os tons de protesto.

Ainda me lembro aos três anos de idade
O meu primeiro contato com as grades
O meu primeiro dia na escola
Como eu senti vontade de ir embora
Fazia tudo que eles quisessem
Acreditava em tudo que eles me dissessem
Me pediram pra ter paciência
Falhei
Gritaram: - Cresça e apareça!
Cresci e apareci e não vi nada
Aprendi o que era certo com a pessoa errada
Assistia o jornal da TV
E aprendi a roubar pra vencer
Nada era como eu imaginava
Nem as pessoas que eu tanto amava
Mas e daí, se é mesmo assim
Vou ver se tiro o melhor pra mim.

A letra nos passa uma noção interessante dos valores deixados após a Revolução Industrial.
Com o período após o século XVIII, a humanidade começou a se espelhar nos modelos de indústrias e fábricas e passou a engenharia, arquitetura, organização e padrão para também as escolas, que fariam outros tipos de máquinas: Máquinas humanas. Que seriam controladas por um "governo", como a letra nos mostra.
Renato, na primeira pessoa, mostra que desde pequeno já tinha contato com as grades, e emenda que no seu primeiro dia na escola, teve vontade de ir embora. Nesse sentido, não julgo o medo, mas julgo o nojo. O que antes seria medo quando criança, hoje se torna motivo de nojo de alguém que vê que a educação era um meio de alienação.
Ele fazia tudo o que eles quisessem, pois ele estava ali para obedecer, e acreditava em tudo o que eles lhe dissessem, pois estava ali para aprender, mesmo se aquilo fosse "verdade" ou "mentira" (no sentido humano e de "valores morais" das palavras). Comenta que lhe pediram para ter paciência, mas ele que não gostava da realidade, falhou... E foi ai que viu como eram as coisas:
Gritaram para ele "crescer e aparecer" ("Se torne gente, se forme, se torne melhor, e venha falar comigo"), ele cresceu e se tornou gente, e não viu mudança alguma! Aprendeu o que era moralmente certo, com pessoas que moralmente eram erradas. Hipocrisia? Lutar por justiça e cometer indiferenças? Ser contra a falsidade e agir com máscaras? Querer menos pobreza e se aliar com ricos?
Renato também nos passa mensagens de influência da mídia, quando mostra que desde pequenos somos obrigados à ver na TV, atos que se distorcem e passam valores contrários à sociedade.
Por fim, finaliza a primeira parte dizendo que nada era como ele imaginava, tampouco as pessoas que ele tanto amava, pois ele viu que todos tem seus defeitos e qualidades, "mas e daí? Pra que pensar assim... Eu vou fazer a minha parte bem feita e o resto que se dane! Vou é tirar a melhor parte pra mim!

Me ajuda se eu quiser, me faz o que eu pedir
Não faz o que eu fizer
Mas não me deixe aqui
Ninguém me perguntou se eu estava pronto
E eu fiquei completamente tonto
Procurando descobrir a verdade
Nos meios das mentiras da cidade
Tentava ver o que existia de errado
Quantas crianças Deus já tinha matado.

Aqui, Renato se tornou um adulto modificado com a sociedade...
Os valores que ele conviveu, a infância de alienação por TV, prisão por escolas, desmoralização pelo social e depredação de valores.
Renato nos diz em outras palavras o quão egoísta, egocentrista, individualista e "mandão" se tornou.
"Me ajuda somente se eu precisar e quiser. Me faz o que eu mando. Não faça o que eu faço, e me deixe quando eu mandar". É exatamente isso o que ele diz, e é exatamente essa a realidade que nossas queridas crianças estão tomando formato e "vomitando educação" em seus pais.
Como podem falar que ele está errado? Ninguém perguntou se ele tava pronto pra sair da escola e assumir uma realidade. Uma realidade menos morta, com tanta mentira e força bruta, como diria Chico Buarque. Justamente por não estar preparado se sentiu tonto e se sentiu tolo descobrindo as verdades no meio das mentiras da cidade. Procurando ouro no lixo. Procurando flores no deserto. Procurando êxitos num mar de fracasso. Mesmo tendo uma vida difícil, esse eu-lírico (que nomeio ser Renato mas poderia ser uma terceira pessoa) assume que tentava ver o que existia de errado no sistema, e diz uma frase um tanto quanto polêmica: "Quantas crianças Deus já tinha matado.", aqui, Renato não joga a culpa em Deus, nem em fiéis ou qualquer outro que se possa sentir ofendido, mas naqueles que jogam seus atos errôneos, como guerras, matanças, sangues e violência em atos que vieram do "Divino", como estaria presente em Fátima, jogando-se a culpa maior, em alguém que é maior que todos nós e não "se defende por meios próprios". É muito fácil jogar a culpa, em alguém que não lhe apontará defeitos.

Beberam o meu sangue e não me deixam viver
Têm o meu destino pronto e não me deixam escolher
Vêm falar de liberdade pra depois me prender
Pedem identidade pra depois me bater
Tiram todas as minhas armas
Como posso me defender?
Vocês venceram essa batalha
Quanto à guerra,
vamos ver.

Por ultimo, a terceira parte nos continua a crítica:
Renato sempre fala a frase "beber sangue", está contido em pelo menos três ou quatro músicas que me recordo, como Natália,  Tempo Perdido e outras... E sinceramente creio que isso seja o ato de "desumanizar" algo.
Ele diz que o Sistema tem o destino dele pronto: "estudar, se formar, trabalhar, casar, ter filhos, morrer" (p.ex), como seria o normal para a vida atual, mas que de todas as opções nunca lhe deixam escolher, eles falam que ele tem o direito de escolha, mas eles mesmos empurram opções.
Eles vem falar de liberdade (como dito em cima), e cometem hipocrisias, batendo nele e em seus ideais, tiram as armas dele - tanto armas de fogo (nos retomando a ideia da ditadura), quanto as armas mentais, os ideais, os planos futuros, as ideias revolucionárias e radicais, protestantes e humanas - e ele pergunta: "como posso me defender?", "Vocês tiram minhas armas, e como irei me defender?" é exatamente como é dito por ele e pensado por ele, como é também feito pelos adversários e pensado por eles, por justamente esse ato, lhe tiram as armas.
Renato finaliza a música com ideia um tanto quanto ameaçador. Ele moldou mentes, ele cativou esperanças... O Governo vence batalhas... Mas e na Guerra? Ainda lembrando de Collor, podemos notar que as mesmas vozes que colocaram o Diretas Já! impedindo a continuação da Ditadura Militar, foram as mesmas vozes que colocaram Collor no poder, sendo o primeiro presidente eleito pelo povo desde 1960, e tais vozes, o tiraram dois anos e meio depois de sua posse.
Como vemos, o Governo, o Sistema, a Sociedade, a Mídia, a Falsidade alheia  são métodos de nos deixarem pra baixo, obedecendo e trabalhando, atrás de grades desde sempre, sendo proibidos de pensar, agir, se defender e querer dignidade, mas eles vencem batalhas todos os dias, todas as horas, quando nos rebaixamos à eles, e nos calamos. Mas nós ainda temos chamas que nos deixam acesos, como seres pensantes, dignando o que chamam de consciência.

Para quem se interessa na música, uma outra página para estudo e interpretação de vídeos e comentários, e não da letra da música. 
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Obrigado por me fazer ultrapassar as metas impostas à mim mesmo. Obrigado pelos acessos e pelo companheirismo de um ano de blogspot.

Análise, crítica e texto sob os direitos de Eduardo Rezende.


5 comentários to "Interpretação: O Reggae"

  • Muito Bom, Eduardo!
    Sabe, eu tenho um professor muito louco, professor do que a gente chama MPC (Metodologia da pesquisa científica). De vez em quando, escondido dos outros professores lá, ele para a aula e começa a falar umas coisas legais pra gente. Ele disse certa vez que não adianta ir pra escola, não. Que a escola é que corrompe a gente. Isso pq é tudo programação do governo, eles dividem a educação, a gente aprende só 1% do que poderia aprender. Na faculdade a gente aprende uma só coisa, que é pra sempre depender dos outros, deles. Eu acredito e sempre achei isso a cara de "O Reggae", que a escola é mesmo uma prisão e ensinaram a gente que quem não gosta dela é sem futuro.
    E essa educação do Brasil, hein? Tô sem aula há quase dois meses, ainda nem terminei o segundo bimestre. É foda! Ano passado teve greve, esse ano tá tendo greve, e eu não sei quando eu me termino o ensino médio!
    Gosto muito dessa música. Aliás, depois de A Tempestade ou O Livro dos Dias, eu fico com o Legião Urbana todo, pq tem a pegada punk do AE.
    Té mais, Dudu!

  • Realmente, minha querida, o ensino no Brasil só está de mal à pior, e quando penso no futuro do que já seria o futuro pros nossos pais (que a tendência foi decair), imagino que é melhor nem ter filhos pra eles nem precisarem passar por isso! Nem nós né, de ver como as coisas mudam e não podemos fazer nada... E quanto à música, penso o mesmo, desde cedo estamos atrás de grades e só aprendemos pouco (como disse seu caro professor), e se não for estudar por fora, e aproveitar todos os recursos... Xih.. Essa história de que só o melhor se dá bem, o mais inteligente... É mentira! O mais esperto que se dá bem!
    Obrigado Tha, muito mesmo! Espero que tenha gostado, porque é uma das que eu mais queria analisar desde o começo (como você viu, eu fiz uma mega pesquisa pra segunda parte. rsrs) volte sempre!

  • Realmente não há muito a ser discutido, só preciso dizer que esta é a análise mais inteligente de todo o blog. parabéns.

  • Muito, muito obrigado!
    Sinceramente, penso o mesmo. rs
    Reflito o quanto cresci por aqui, e vejo que essa foi uma das que mais gostei de escrever depois de "Metal Contra as Nuvens". Obrigado Raphael!

  • GRAPHITE MACHINE 2° VERSION É A CONTINUAÇÃO DA MAQUINA DE GRAFITE DESCOBERTA POR CRIPTOANÁLISE O LEGIÃO URBANA PODE ACABAR COM A ÁGUA DO MAR PEGUE 1 CAIXA DE 12,5X5 CM COLE UM PAPEL EM BRANCO SOBRE A CAIXA E PEGUE 2 PAPEIS CORTE EM FORMATO DE CÍRCULO FECHADO E COLE-OS PEGUE 3 PAPEIS CORTE EM FORMATO DE O E COLE-OS,O CÍRCULO E O O TEM QUE SER DA MESMA LARGURA DA CAIXA DE 5 CM
    CONECTE O MOTOR DO DRIVE DE DVD NO CENTRO DE 3 AROS FEITOS DE PAPEL PEGUE AS OUTRAS PONTAS DOS 3 AROS E CONECTE NAS BORDAS DO CÍRCULO PRIMEIRO E DO O,AGORA COLE O MOTOR COM AS ESFERAS DO LADO DA CAIXA E LIGUE O MOTOR PARA GIRAR AS ESFERAS EM SENTIDO HORÁRIO,AGORA PARA FUNCIONAR COM A CANETA RISQUE O PAPEL SOBRE A CAIXA E A TINTA IRAR SE MULTIPLICAR EM MILÉSIMOS DE SEGUNDOS.É UMA MAQUINA DO TEMPO E O CORPO DO TEMPONALTA NÃO SENTE AÇÃO DO TEMPO NENHUMA E O TRANSPORTA PARA O FUTURO.

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