Um mundo adolescente se abre.
O desinteresse toma conta da cabeça de um jovem classe média e ele mostra o quão o futuro pra ele é vago e desimportante. Essa é a história de "Química", a música analisada.

Viria ela à ser gravada pelos Paralamas do Sucesso, também apresentada ao público legionário em 1987, no álbum "Que País É Este". Segue-se a letra com a análise:


Estou trancado em casa e não posso sair
Papai já disse, tenho que passar
Nem música eu não posso mais ouvir
E assim não posso nem me concentrar

Vemos que o adolescente rebelde (isso fica um pouco claro imaginando-se o perfil da pessoa e do personagem adotado por Renato Russo), que ele está sendo obrigado à ficar de castigo porque seu pai o obriga à estudar para que ele passe no vestibular.
Ele diz que nem a música o pai o deixou ouvir, e que esse é o melhor método dele se concentrar. Ele não se concentra porque não tem música, porque ela foi proibida à ele.
Essa parte, socialmente criticando, seria mais ou menos o "querer que tenhamos experiências sem dar experiência".

Não saco nada de Física
Literatura ou Gramática
Só gosto de Educação Sexual
E eu odeio Química

Aqui ele nos mostra que odeia física, literatura e gramática, ele só gosta de Educação Sexual, mostrando o quão vazia estaria essa geração, que apenas gostam de sexo, afinal, é essa a realidade daquele e do nosso tempo. A sociedade se tornou vazia, alienada à gostar apenas do mostrado, do explícito. Renato aqui, nos diria além do ódio por química, literatura e afins, que Educação Sexual é a única coisa que o prende. A única coisa que prende sua mente jovem, punk, rebelde e adolescente - caracterizado nesse personagem de primeira pessoa. 

Não posso nem tentar me divertir
O tempo inteiro eu tenho que estudar
Fico só pensando se vou conseguir
Passar na porra do vestibular

Ele aqui mostra que está descontente com os estudos.
Não se diverte, nem sai, porque o tempo todo deve estudar, e fica apenas pensando se conseguirá passar no vestibular.
Mostra que os pais, cobram muito dele, e tiram e dão tudo à ele, porém ele faz o que bem quer, quando quer e como quer. Renato seria um garoto classe média, mimado e um pouco calculista. 

Não saco nada de Física
Literatura ou Gramática
Só gosto de Educação Sexual
E eu odeio Química

Novamente apresentado e novamente explicado.
Renato ou a terceira pessoa, se interessa apenas ao que lhe convém, o lado que julgaria bom da vida. 

Chegou a nova leva de aprendizes
Chegou a vez do nosso ritual
E se você quiser entrar na tribo
Aqui no nosso Belsen tropical

Essa parte nos mostra o mercado de trabalho à vista de um jovem despreparado.

Ele nos diz que chegou a hora de outros aprendizes, entrarem em sues lugares, fazerem seu ritual (apresentação e prestação, serviço e emprego, adquirindo um cargo cargo), e faz um convite, para que quem quiser entrar no esquema social dizendo que a nossa sociedade, virou um campo de concentração nazista, tropical: virou tortura. 
A modernidade veria portanto, a sua vez no mercado, como uma tortura contra seus princípios rebeldes, tribais e donos dos próprios narizes

Ter carro do ano, TV a cores, pagar imposto, ter pistolão
Ter filho na escola, férias na Europa, conta bancária, comprar feijão
Ser responsável, cristão convicto, cidadão modelo, burguês padrão
Você tem que passar no vestibular
Você tem que passar no vestibular
Você tem que passar no vestibular
Você tem que passar no vestibular

Essa parte é interessante, pois por ela, complementa-se o caráter jovem do personagem.
"Para se ter carro novo, ter TV, pagar imposto e ter um "pistolão", ter filhos na escola, férias na Europa, conta bancária, e poder comprar feijão, ser responsável por seus atos, parecer um cristão convicto, um modelo de cidadão e um burguês padrão, você tem que passar no vestibular!" É a ameaça, é a cobrança. O jovem sente pressão por ter que passar no vestibular por justamente ver que para se ter tudo o que é julgado bom, ele tem que ser alguém, e pra se ter alguém, ele tem que ser bom, e pra ser bom, ele tem que ser melhor que os outros. E essa é a lei da selva da sociedade: O melhor e o maior vence.


Não saco nada de Física
Literatura ou Gramática
Só gosto de Educação Sexual
E eu odeio Química

Novamente o refrão e novamente o protesto.
Uma juventude cansada de cobranças por ter que gostar do que não gosta pra ser alguém, e que assume seus verdadeiros gostos, remando contra a maré social e moral.
Não que esse adolescente esteja certo em não querer ser melhor ou justamente, não querer buscar informação, mas que a crítica é bastante clara, ela é: Os pais cobram de seus filhos para que eles sejam sempre os melhores, e nem sempre o que é melhor aos filhos é bom aos pais, e vice e versa, mas que sabe, o que seremos quando crescermos? 





Análise e interpretação: Eduardo Rezende




Vinda, obviamente, do terceiro álbum da Legião Urbana, e dando a ele, o seu nome, "Que País é Esse", a música analisada nos traz criticamente o que muitas das músicas do álbum nos mostra.
Sendo de uma estrutura simples e sem a necessidade de um aprofundamento, apenas apresento-a com um breve comentário feito após a letra.
"Que País é Esse?" nos mostra o pensamento reforçado de Renato Russo, sendo até hoje, considerado um dos grandes trabalhos da Legião Urbana, ficando no mesmo patamar de outras grandes músicas, uma delas, do mesmo álbum, Faroeste Caboclo, além de tantas outras do mesmo e de outros álbuns. 
Muito conhecida, extremamente crítica, simbólica e direta. São as palavras que descrevem com perfeito modo, o trabalho à seguir:

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?

No Amazonas, no Araguaia iá, iá,
Na baixada fluminense
Mato grosso, Minas Gerais e no
Nordeste tudo em paz
Na morte o meu descanso, mas o
Sangue anda solto
Manchando os papeis e documentos fieis
Ao descanso do patrão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Terceiro mundo, se foi
Piada no exterior
Mas o Brasil vai fica rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos indios num leilão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?


Um Salve à Renato, que nesse mês completa dezesseis anos de morte, e que mesmo tão jovem, há algum tempo atrás, já se perguntava que país perdido é esse, e que rumo tomaremos!
Um país considerado praia-futebol-mulheres-amazônia, que nos coloca, à olhares estrangeiros, como um terceiro mundo. Um país, que do Norte, ao Sul, é mandado por pessoas que exploram os mais baixos.
Um país que há sujeira tanto nos sistemas de favelas (tráficos, mortes e injustiças) e sujeiras no senado - "Justiça" (não muito diferente do sistema das favelas).
Um país tão diferente, mas tão igual, em todas as esquinas.
Um salve pra Renato Russo, que há dezesseis anos, já tinha noção dos rumos de um país verde-amarelo. 


Texto de: Eduardo Rezende.


Renato Russo, sem dúvida alguma, foi uma das grandes mentes, palavras, atos e personalidades que o Brasil jamais viu. Com um sucesso enorme, com uma legião de fãs, Renato sempre será imortal até o último pulsar de nossos corações, e o último bater de nossa mente.
Renato hoje, 11 de outubro, completa 16 anos de morte. É com grande peso que eu e muitos outros fãs temos que assumir que sua presença nos faz falta, que você sempre será nosso líder, o líder de uma legião urbana de vozes e sentimentos.

Legião Urbana só irá morrer quando o último coração legionário morrer,
E a voz, os atos, as palavras, letras e sentimentos serão sempre eternos.

Vida e Morte, Carreira Musical e Curiosidades.

Do dono.


Uma das mais poéticas, de estrutura simples, ritmo e letra alegre, "Quase Sem Querer" nos dá noções perfeitas de um amor e dúvidas adolescentes, de uma frequência de conflitos internos.

Vindo do segundo álbum da Legião Urbana, "Quase Sem Querer" traria consigo um sucesso enorme e uma responsabilidade imensa de competir como uma das "letras que se destacam mais" em um álbum que traria Eduardo e Mônica, Índios, Metrópole, Andrea Doria e Daniel Na Cova dos Leões, dentre outras letras não citadas.

Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso,
Só que agora é diferente:
Sou tão tranqüilo e tão contente.

Essa música ela tem vários modos pra poder se analisar.
Levando e conta a fase de Renato Russo, e pensando por um outro lado de um amor adolescente (que essa música nos dá em seu leque), cheguei à conclusão que "Quase Sem Querer", seria uma auto-descrição de Renato Russo.
Ele tem andado distraído, impaciente e indeciso, e esta confuso, em relação à esse novo amor.
Distraído por só pensar nessa terceira pessoa, impaciente porque o quer, indeciso, porque esse amor pode lhe dar opções (até a homossexualidade) e sente que agora, tudo está diferente, porque ele está tranquilo e contente, seguro e sente-se correto com esse novo amor que o invadiu.

Quantas chances desperdicei,
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.

Ainda no ponto de vista anterior, analisando a letra de um relacionamento à modo "Daniel Na Cova dos Leões", Renato se pergunta de quantas chances ele desperdiçou, quando o que ele mais queria, era provar pra todo mundo, que ele não precisava provar nada pra ninguém, se referindo possivelmente aos preconceitos, às ignorâncias de uma sociedade intolerante ou caso o relacionamento for de "menino para menina", se encaixando também, das possíveis vezes que foram criticados por estarem juntos. 
Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira,
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber tudo.

Renato em outras palavras, diz que se partiu em partes pra terceira pessoa juntar, e que ela, por ser como ele, soube procurar e achar cada pedaço, e por isso, ele queria sempre achar uma explicação pro que ele sentia (algo diferente, socialmente, talvez?), como um anjo caído, ele fez questão de esquecer, que se enganar é a pior enganação, provando pra si mesmo, que ele sempre se conheceu, e sabe que não é mais tão criança (mais tão jovem), ao ponto de saber tudo (ou julgar que saberia tudo).
Já não me preocupo se eu não sei por que.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.

Já não se preocupa se não sabe o porquê de ser assim.
Às vezes, por ser exatamente desse jeito, ele vê coisas que as outras pessoas não vêem (comportamentais, atitudes e palavras, que ditas ou feitas por pessoas "normais", não soaria diferente e nem teria o mesmo sentido). E ele sabe, que a terceira pessoa, quase sem querer, vê/sente o mesmo que ele.
Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos!
Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas,
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Renato, de um modo interessante, diz que é correto e bonito o "infinito" e que ele é um dos deuses mais lindos. Creio que esse infinito seja a liberdade (que Renato tanto buscava) em seus atos. Quando liberto, sente que sabe às vezes, que usa palavras repetidas (sentimentos ou atos iguais), e se pergunta quais são essas "palavras" que nunca são ditas.
Me disseram que você
Estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto.

Renato realmente percebe o quão grande é o seu afeto pela outra pessoa quando descobre que a terceira pessoa estava chorando. Quando ela chorou, em seu momento de fraqueza ou dor, Renato percebeu o quanto lhe queria bem.
Já não me preocupo se eu não sei por que.
Às vezes, o que eu vejo, quase ninguém vê
E eu sei que você sabe, quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.

Renato repete suas palavras novamente...
Ele já não se preocupa se não entende os porquês de ser assim, e às vezes percebe que o que ele vê, quase ninguém vê, pois nem todos estão atentos como ele, e ele sabe, quase sem querer, que o fim disso tudo, ele e a terceira pessoa sabem resolver, pois eles querem a mesma coisa.
_
Minha análise foi realmente um pouco confusa e em certo ponto deixou à esperar, mas confesso que essa música me deu sempre dois lados (um relacionamento jovem e uma atração bissexual), e tentei expor ambas na mesma análise. Espero que entendam.


Análise e interpretação: Eduardo Rezende


Uma coisa curiosa que já citei várias vezes nas interpretações, é o modo com que Renato sempre colocou nas músicas da Legião um simbolismo próprio mudando ou fazendo um significado pra palavra. Um exemplo disso, é o termo "Sol", que junto à essa música, em 'Mais Uma Vez', a mesma palavra tem o mesmo sentido.

Em Quando O Sol Bater na Janela do Teu Quarto, podemos observar a esperança de um modo diferente, a crítica sob um outro olhar e analisar o comportamento de uma geração.


Quando o sol bater
Na janela do teu quarto,
Lembra e vê
Que o caminho é um só,

Renato, nessa parte, quer dizer que quando o "sol", chegar e se mostrar, deve-se lembrar que existe apenas um caminho. Sempre encarei essa parte como: Quando as oportunidades chegarem e houver opções, devemos escolher apenas um caminho bom, o caminho do Sol. 

Por que esperar
Se podemos começar
Tudo de novo?
Agora mesmo,

Essa parte complementa a anterior. Por que esperar as oportunidades e os caminhos se abrirem, se podemos sempre recomeçar? Imagino que essa parte seja como se nós tivéssemos a obrigação de fazer com nossas próprias mãos as oportunidades, começando, recomeçando e começando novamente: devemos começar tudo de novo sempre, agora mesmo. 

A humanidade é desumana
Mas ainda temos chance,
O sol nasce pra todos,
Só não sabe quem não quer,

Essa parte mostra que mesmo em um terreno corroído, devemos ser puros e melhores.
A humanidade é desumana (um ótimo jogo de moral e de poesia com as palavras), mas mesmo assim, ainda temos chance, pois o Sol nasce pra todos (se referindo tanto às oportunidades - citadas no começo da análise - quanto o sol de um novo dia), e disso só não sabe quem não se interessa por mudanças, quem vive e prefere a mesmice e a vida cômoda. 

Quando o sol bater
Na janela do teu quarto,
Lembra e vê
Que o caminho é um só,

Renato repete novamente os versos, de que quando o sol bater no quarto (se referindo acho ao fato do quarto ser o lugar de descanso, do vazio e da vida cotidiana), é para se lembrar e ver que o caminho é um só: um caminho paralelo dessa humanidade desumana. 

Até bem pouco tempo atrás,
Poderíamos mudar o mundo,
Quem roubou nossa coragem?
Tudo é dor,
E toda dor vem do desejo,
De não sentimos dor,

Até bem pouco tempo atrás, a sociedade era mais pura e conseguiríamos mudar o mundo, e hoje essa coragem foi roubada pelo individualismo, pela competição, pela mídia alienadora e a desumanização. Tudo é dor, e toda a dor vem do desejo de não sentirmos dor.
Tudo é errado, e tudo o que é errado vem da vontade de sermos puros. 

Quando o sol bater
Na janela do teu quarto,
Lembra e vê
Que o caminho é um só

Devemos sempre nos lembrar: Quando são dadas as oportunidades, e quando o sol bate em nossa janela, nos convidando para um novo dia, devemos fazer a diferença não só para nós mesmos, mas para um meio social e para um mundo que está carente de mentes e vozes que conseguirão mudar.
O caminho é um só, somos lembrados constantemente à cada novo dia, com cada novo amanhecer  O caminho é a evolução, e a evolução é contínua. 



Análise e interpretação: Eduardo Rezende