Creio que a parte mais interessante para quem está do lado de cá - escrevendo - é justamente ver a letra e pensar ou no momento que ela se adequou na tua vida, e tentar colocar isso dentro do teu ponto de vista para a análise e a própria interpretação, ou então nos momentos em que ela além de se adequar, foi clara para responder o que precisava ouvir, mascarar uma pessoa que se adequava à letra e circular um tempo, onde ela se mostra, e onde não para de ser tocada, que é o que acontece quando as músicas são de novas descobertas, como aconteceu com essa, há muitos e muitos anos atrás...
Apresentada como uma letra de Renato Russo, sendo a oitava faixa de "O Descobrimento do Brasil", a letra de "Vamos Fazer Um Filme", é muito curiosa por se tratar de temas tão específicos e tão bem escritos em uma forma muito mais do que simples por Renato. 

Achei um 3x4 teu e não quis acreditar
Que tinha sido há tanto tempo atrás
Um bom exemplo de bondade e respeito
Do que o verdadeiro amor é capaz
A minha escola não tem personagem
A minha escola tem gente de verdade
Alguém falou do fim-do-mundo,
O fim-do-mundo já passou
Vamos começar de novo:
Um por todos, todos por um.

Como a letra conta uma história, falarei da minha história diante dessa música tão fantástica.
A primeira pessoa se pega vendo um álbum de formatura, e dentro dele, após tantos rostos de pessoas do passado que fizeram parte de um tempo junto com ele, ele vê o rosto de uma terceira pessoa - ela, talvez - que o faz ver, sorrir e comparar aquela pessoa, daquele tempo, com a mesma atualmente... E se vê pensando em como o tempo passou, como aquela pessoa, um exemplo de bondade e respeito diante de um verdadeiro amor, talvez um amor-amizade nutrido pelo tempo e acabado pelo mesmo.
Renato então, mascarado como a primeira pessoa, faz desgeneralizar a ideia de que aquelas fotos não representam personagens, não representam o caráter das pessoas visto por outras, mas sim sentimentos próprios visto por quem os conhecessem, tirando o fato de personagens de uma fotografia, para gente de verdade, cuja imagem foi captada para perpetuar no tempo. 
"O fim do mundo", dito por Renato, caberia nas palavras dos Engenheiros, ao dizer que o "fim do mundo é todo o dia da semana", sendo portanto, o fim que Renato quis dizer, esse término deste mundo. O mundo da amizade de todos que ali estavam, de todas as pessoas do mesmo círculo, o fim do convívio com as pessoas deste mundo.

O sistema é mau, mas minha turma é legal
Viver é foda, morrer é difícil
Te ver é uma necessidade
Vamos fazer um filme.

O Sistema - talvez de Ensino ou Educação, talvez social e escolar - é falho, porém a turma do convívio é legal. Viver, batalhar e lutar todos os dias da semana é duro, é corrido, e morrer é ainda pior, porque a dúvida nos persegue.
Quanto ao "te ver", Renato pode tanto se referir à fotografia 3x4 guardada quanto à pessoa em si, que é o que imagino. Penso que a pessoa se formou com ele e é do seu círculo de convívio, talvez até a "atual esposa", ou namorada, ou talvez até uma amiga que ele tem algo à mais. 

O sistema é mau, mas minha turma é legal
Viver é foda, morrer é difícil
Te ver é uma necessidade
Vamos fazer um filme
E hoje em dia, como é que se diz: "Eu te amo."?
E hoje em dia, como é que se diz: "Eu te amo."?

"Vamos fazer um filme", entra no mesmo sentido de "quero escrever um livro sobre..." quando você se depara com alguma situação interessante e pensa em como seria interessante se mais pessoas pudessem compartilhar os sentimentos de forma passiva, daquilo que você sentiu. Portanto, fazer um filme, neste momento, seria para mostrar a interessante história de uma turma, de um relacionamento, de um círculo de amizades e de um tempo "que não volta mais. Não volta". 

Sem essa de que: "Estou sozinho."
Somos muito mais que isso
Somos pinguim, somos golfinho
Homem, sereia e beija-flor
Leão, leoa e leão-marinho
Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito
Chega de opressão:
Quero viver a minha vida em paz
Quero um milhão de amigos
Quero irmãos e irmãs
Deve de ser cisma minha
Mas a única maneira ainda
De imaginar a minha vida
É vê-la como um musical dos anos trinta
E no meio de uma depressão
Te ver e ter beleza e fantasia.

Essa parte sempre se mostrou enigmática...
Após tantas informações de não estar-se sozinho, Renato nos bombardeia com animais curiosos e de diversos seguimentos, pássaros, mamíferos, homem e mitológico, e diz precisar de "carinho, liberdade e respeito", assim como todos estes animais, e complementando o não estar-se sozinho e o "somos muito mais que isso".
Renato diz querer parar com a opressão, talvez dos sentimentos, e que quer ter a sua vida em paz.
Quer um milhão de amigos, quer irmãos e irmãs (talvez os próprios amigos íntimos, sem necessariamente, serem filhos da mesma mãe ou pai), e que deve de ser cisma sua, mas a única maneira que consegue enxergar sua vida de forma bonita e concreta, é justamente fantasiando e vendo a beleza de um musical dos anos 30, comparando-o com sua vida em um momento de uma depressão ou quedas.

E hoje em dia, como é que se diz: "Eu te amo."?
E hoje em dia, como é que se diz: "Eu te amo."?
E hoje em dia, como é que se diz: "Eu te amo."?
E hoje em dia, vamos Fazer um filme
Eu te amo
Eu te amo
Eu te amo

Após esses últimos versos de repetição, podemos ter a plena certeza de que ele ainda nutre um amor passado.
Assim como vivia sua vida comparando-a com um musical dos anos 30, está "desatualizado" até para dizer que a ama! E eis que surge a crítica tão bem colocada... Apesar de não ter dito, sabia que naquele tempo, quando se amava ou sentia atração ou até mesmo afeto por alguma pessoa, se dizia "eu te amo", e ele, ao ver a realidade do atual meio social ou sistema, se vê embaraçado, ao ver que dizer que ama alguém é a coisa mais natural do mundo, mas ninguém sabe realmente o valor de se dizer, "eu te amo". 
Curioso mencionar também, ainda dentro deste ponto, o show em que após dizer sobre um personagem (quem sabe até desta turma tão defendida por ele), chamado Zé Chinelão, Renato pergunta à platéia como se diz "eu te amo", e após respostas eufóricas, dentre elas um "I love you", Renato responde, "Ah, pensei que era: vamos ficar um pouquinho gatinha?".
A sociedade e os sentimentos mudaram. As pessoas que os sentem, se é que sentem e demonstram, mal sabem seus valores. E Renato ainda diz que é preciso acreditar nesta geração perdida!


Análise e texto: Eduardo Rezende


8 comentários to "Interpretação: Vamos Fazer Um Filme"

  • Excelente análise. Essa já era uma das minha músicas preferidas, mas depois de ler isso estou gostando ainda mais dela.
    Interessante você mencionar o show, pois quando eu coloquei meus olhos nesta postagem eu logo pensei nele. Sempre que eu ouço esta música eu lembro dele. "Ah, pensei que era: vamos ficar um pouquinho gatinha?" é uma frase que sempre me faz sorrir quando eu escuto.
    Valeu, e continue com o bom trabalho.

  • O meu real e sincero obrigado Nuthis!
    Realmente, quando ouço, mesmo a versão gravada, sempre lembro do Zé Chinelão... após sua triste história, impossível não pensar no semi homem que enxerga garotas-objetos! rs.
    O meu muito obrigado, volte sempre!

  • Olá,meu nome é Suane, to comentando com anônima porque não tenho conta, bom, eu sou leitora do seu blog a muito tempo, nunca comentei, mas espero por essa análise a bastaante tempo, e não me decepcionou, fantástico o seu olhar sobre ela, como eu ja imaginava que seria,Parabéns, essa é uma das minhas preferidas da Legião, e como vocês citaram ai acima, é automático lembrar do Zé Chinelão e da frase do Renato, kk

  • Obrigado Suane!!
    Realmente é gratificante ler isso e nos ajuda de certa forma à querer continuar mais e mais!
    Muito obrigado pelos elogios e espero sempre sua participação no blog!
    Muito obrigado, até a próxima!

  • Intepretação perfeita, somente duas colocações: a parte "quero um milhão de amigos" creio ser uma referência a música do Roberto Carlos "Eu quero ter um milhão de amigos", e a parte que "De imaginar a minha vida é vê-la como um musical dos anos trinta e no meio de uma depressão te ver e ter beleza e fantasia" creio se referir ao início dos grandes musicais em hollywood logo após a grande depressão americana da década de 30, devido ao crack da bolsa de Nova York em 1929, a maior crise econômica americana e talvez mundial da história.
    Trechos de http://tudosobremusicais.wordpress.com/2011/06/18/parte-ii-o-surgimento-de-um-novo-genero/:
    "O ano de 1929 não é lembrado apenas por seus musicais. Foi também o ano da quebra da bolsa de valores de Nova York. Bancos faliram e muitos norte-americanos perderam seus empregos, ficando à beira da miséria. Na década seguinte, no período conhecido como “A Grande Depressão”, o cinema e, sobretudo, os musicais tiveram papel como válvula de escape para as massas desesperadas (obviamente apenas aqueles que ainda podiam pagar por um ingresso)."

    Abraços!!!

  • Também compartilho da análise do Cláudio Júnior, quando faz o paralelo entre a depressão econômica e a época dos grandes musicais. Interpretei dessa forma desde quando escutei a música pela primeira vez, assim que foi lançado o disco.

  • Bom, pra mim ele suicidou e encontrou os cavalo-marinhos no fundo do mar enquanto boiava.

  • Bom, pra mim ele suicidou e encontrou os cavalo-marinhos no fundo do mar enquanto boiava.

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