Acho curiosa a forma com que as bandas brasileiras retratam a sociedade.
Nem sempre falam sobre si, e nem sempre falam sobre seu meio. Legião Urbana tinha o dom impecável de transmitir a realidade e criar personagens para transpassar a ideia contida em uma música. Ora simples, ora complexa, as músicas chegam e nos passam morais de personagens vistos ou inventados ou até mesmo vividos.
Engenheiros do Hawaii conseguem passar a moral embutida na política. Com críticas acirradas ao sistema capitalista e com leves tendênciais socialistas e as vezes o oposto e as vezes mais do que o oposto, passam morais andando junto à criticidade de um sistema e não de uma cultura (como a Legião Urbana), nem de uma fase (como Chico Buarque) ou de atitudes (como Pitty e Capital Inicial). Como tudo tem seus dois lados, Engenheiros conseguem tratar além das críticas, o sentimentalismo. Segue-se abaixo uma das minhas preferidas quando o assunto é crítica na voz de Gessinger.


Gessinger começa sua letra dizendo que presta atenção à tudo o que eles (esta terceira pessoa do plural, se referindo aos poderosos), dizem, mas eles não dizem nada.
Menciona Fidel (Fidel Castro, o revolucionário cubano) e Pinochet (Augusto Pinochet, ditador cubano), tiram sarro desta geração que não se rebela contra injustiças, que não faz nada para a melhor, não muda suas escolhas e tão pouco os rumos e passos lentos de revolução do seu país.
Aos poucos, a alienação se torna tão grande e a acomodação se torna tão normal, que é normal inclusive, crer que seja simples um boçal atirar bombas na embaixada, achar normal pessoas ignorantes fazendo a revolução armada. Toda a forma de poder é uma forma de morrer por nada, a frase que resume exatamente o que a música quer retratar. A frase que diz exatamente o que acontece desde a esquerda extrema até a direita extrema, mesmo quando não houver poder, haverão poderosos, que farão os ouros morrerem para não perder o que têm, e eis que surge todos os movimentos políticos, porque toda a forma de conduta se transforma numa luta armada. Jamais irá se agradar à todos e a tudo.
O pior é saber que tudo isso acontece. Que todas as revoluções poderiam ser feitas, e todas as greves e vozes capazes, poderiam mudar tudo. Se saíssem da teoria e se unisse à prática, mas a "história se repete e a força deixa a história mal contada", os problemas sempre se repetem, e a ganância, o orgulho e o desejo de ser mais sempre falarão mais alto, e o mesmo fracasso se repete por páginas e páginas desbotadas ou com sangue.
Os últimos versos falam por si, tal como a letra toda, que além de ser bem estruturada, consegue passar sua crítica apenas se contendo à uma interpretação, digna apenas de uma análise superficial.

"E o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante e fascinada.
É tão fácil ir adiante e se esquecer que a coisa toda tá errada.
Eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada".

Claramente, a letra mostra que através das propagandas fascistas, o modo de governo se torna fascinante e deixa as pessoas em fascínio pelo fascismo, e é tão fácil esquecer o que acontece e ir adiante, pular etapas e não pensar que o esquema político (não apenas do fascismo, mas de toda a forma de poder, que é uma forma de morrer por nada) e o cenário estão errados, mas não resolve, pois tentamos achar pistas, tentamos fazer a revolução, e por mais que tentamos não conseguimos. Tentamos entender o erro e trazer pra nós a essência dos problemas, vendo fatos e analisando corretamente, tentando fazer a revolução... Tentamos nos esforçar para crer na política, para achar a solução... Prestamos atenção ao que eles dizem, mas eles não dizem nada...

"Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer..."

Eduardo Rezende, texto e interpretação. 


7 comentários to "Toda a forma de poder (Engenheiros do Hawaii) "

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