Incrível a capacidade de mestres como Chico Buarque de conseguirem colocar a crítica tão explícita ou disfarçada e passarem a mensagem. Chico, que já vem com suas raízes da bossa, de uma MPB regada ao samba, consegue com excelência fazer suas críticas em diversos personagens que cria e que personifica uma característica, pecaminosa ou virtuosa, que nos faz percebermos o quão mesquinho é nosso meio e o quão corrompido somos.

Contando com a participação de diversos artistas, a Ópera do Malandro é um álbum de Chico lançado em 79. O disco traz músicas do musical homônimo, de autoria de Chico Buarque, baseado na Ópera dos Mendigos, de 1728, de John Gay, e na Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O musical estreou na cidade do Rio de Janeiro, em julho de 78 e foi recriado na cidade de São Paulo, em outubro de 79, ambos sob a direção de Luiz Antônio Martinês Corrêa.
O filme Ópera do Malandro estreou em 86, sob direção de Ruy Guerra, baseado no musical. A trilha sonora do filme foi lançada também em 86.

O disco traz a diversas histórias e em especial uma moça.
A moça, se chama Geni, mas nem sempre teve este nome, e nem sempre é reconhecida como tal.

 
Namorando o corpo de todos os negros tortos, deficientes, do mangue ao cais do porto, ela se prova de corpo dos errantes, cegos e retirantes e de quem nada tem.
Desde cedo, mostrando uma tênue fineza especial e desvio ao sexo, Geni dáva-se na cantina, na garagem, no tanque e no mato. Considerada a rainha dos detentos, das loucas, dos lazarentos e demais doentes e dos moleques do internato; dando-se até aos velinhos sem saúde e às velhas sem porvir, mostra-se uma prostituta do mais alto nível, flexionando-se para todas as situações.
Um poço de bondade, cuja a cidade repete as ordens de escárnio e zombação. "Joga pedra na Geni! Joga pedra na Geni! Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!".
Todos os dias, vendendo-se por prazer alheio até o cansaço, Geni aguentou os xingamentos da cidade. Um dia surgiu dentre as nuvens, um brilhante e flutuante zepelim, que pairou sobre os edificios abrindo diversos buracos no céu com seus canhões, impondo medo.
A cidade, apavorada, se quietou paralizada, pronta para se tornar destroços, mas do mesmo zepelim, desceu o comandante que disse ter mudado de ideia  ao chegar. Ao ver Geni, mudou os planos: já não queria destruir as casas ou prédios, por tamanho horror ou iniquidade, mas ao ver uma dama, uma formosa dama, não resistiu. Poderia seus planos mudar, se aquela moça a ele servisse.
"Essa dama era Geni! Mas não pode ser Geni! Ela é feita pra apanhar; Ela é boa de cuspir; Ela dá pra qualquer um; Maldita Geni!".
Mas de fato ela, tão coitada, simples, singela e frágil, também tinha os seus caprixos! Da mesma forma que ele gostaria de ter o prazer com seu corpo, formoso e belo, ela gostaria de amar pessoas como ela, de caráter animalesco, animais socializados, bichos, nojentos. Não gostava do brilho e do cobre, gostava do ofusco e do fedido. O erro estava na situação: havia cativado o forasteiro!
Após a cidade ouvir seus lamentos - e seus enfurecidos nãos - todos, em romaria, foram beijar as suas mãos. O prefeito (de joelhos), o bispo (de olhos vermelhos) e o banqueiro (com dinheiro), foram até a sua casa para que ela lhes salvasse.
"Vai com ele, vai Geni! Vai com ele, vai Geni! Você pode nos salvar! Você vai nos redimir! Você dá pra qualquer um! Bendita Geni!".
Após tantos pedidos, tantos lamentos e lágrimas, Geni se sentiu na obrigação de salvar seu povo. Sinceros e sentidos pedidos, fez Geni pensar em todos os seus erros, mas dominando seu asco, em uma noite lancinante, entregou ao amante, como dando-se ao carrasco - por ódio, medo e nojo.
Com seu corpo, o homem fez sujeira, lambuzou-se a noite toda até ficar saciado, e antes do amanhecer, com seu zepelim, partiu da cidade.
Geni, acordou com os primeiros raios do dia, e ao ver-se sozinha, virou de lado e até tentou sorrir. Mas nem bem amanhecia, a cidade em cantoria, não deixou ela dormir...
"Joga pedra na Geni! Joga bosta na Geni! Ela é feita pra apanhar! Ela é boa de cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni!"

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Geni foi corrompida por toda a sua vida. Desde cedo, em uma vida sofrida, assumiu a profissão fácil de ganhar dinheiro sentindo prazer. Amava o que fazia, e amava o perfil de quem fazia. Amava os pobres, os sujos, os humilhados. Amava pessoas como ela.
Geni sempre fora a vítima do meio social, e quando houve o medo por parte de todos e ela era a única salvação, eis que em romaria todos a procuram. Ela os salva, e no dia seguinte, volta a ser a culpada por uma vida que todos desprezavam. Geni são todos os que um dia serviram para alguma coisa.
Texto e análise: Eduardo Rezende


4 comentários to "Geni e o Zepelim (Chico Buarque)"

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