Demorei.
Demorei para escrever no blog e até mesmo analisar alguma música neste mês. A correria ultimamente tem me impedido de fazer várias das coisas que gosto. O tempo para ler, inclusive está escasso.
Demorei também para poder ir ao cinema, e quando fui, me preparei para um dos filmes que mais esperava ver este ano - depois de Faroeste Caboclo, que finalmente irá sair - e após sentar-me na poltrona, me emocionar com os primeiros sinais de que a grande obra, Somos Tão Jovens, que iria começar.

Aos leitores que já assistiram, de grande valia foi ver a real apresentação de Renato Russo. O Por Toda a Minha Vida, realizado pela Rede Globo há anos atrás - ainda era criança quando o ocorrido - retratou por cima toda a vida, e repito, retratou a vida toda.
Somos Tão Jovens de fato retratou a juventude. Esperava mais ao pensar que encontraria, como em Cazuza, O Tempo Não Pára, desde a juventude, até os últimos suspiros do recém descoberto soropositivo. Vale ressaltar, claro, que a Mãe de Renato, a preservadora de todo o arquivo histórico, pediu para "pegarem leve" e não retratarem as questões de drogas em abuso ou relações, ou a questão da Aids ou qualquer outro meio que "influenciasse os jovens". Claro que quando Renato dizia, "as pessoas bebem minhas palavras" jamais se referiu à querer seguir seus passos, mas creio que ressaltar a real vida que o mesmo teve, teria um peso maior.

Sobre a juventude...
(Não fugiu do livro Renato Russo, o filho da revolução). O maior ponto em todo o filme e ao meu ver o mais importante. Ressaltou-se muito a questão do tédio em Brasília e que desta forma os jovens de classe média (média alta e alta, também), sem ter o que fazer, exportavam costumes e criavam bandas. Acho válida até a questão de como mostraram um Renato ativo socialmente e popular dentre os diversos grupos jovens. O Renato tímido se mostrou extrovertido no círculo de amigos e recatado em todos os outros meios. O típico que nos é retratado e encenado com perfeição.

Sobre as drogas...
Acho importante ressaltar que ao mostrarem a questão de "filhinhos de papai" usarem a droga e serem liberados, e os outros, sem a devida credencial - de filhos de diplomata, bancários, políticos (...) - conseguirem passar, mostra o quão preconceituoso era o sistema e o quão seletivo, e da mesma forma, nota-se uma crítica muito bem elaborada e feita com grande perfeição. Sem dúvida a cena da Rockonha foi uma das mais impactantes e críticas.

Sobre o Aborto...
Com grande importância isso foi mostrado. Levaram um lado "Aborto Elétrico" que poucos conheciam ou imaginavam. Foi válido, claro, mas deixaram muito preso o lado jovem nisso e quando finalmente a Legião iria ser mostrada, os versos de Será encerraram o filme e a cortina foi fechada.

Claro que não sou ninguém para criticar a obra, e nem a critico, achando, claro, que foi feita com grande carinho e muito bem feita. Apenas acho que se prenderam a juventude fazendo jus ao nome escolhido - que pelo menos então acabassem o filme com esta música (apesar de acabar com a cena do show em que cantam a primeira música de maior sucesso da banda). Os maiores elogios creio eu, vão ao elenco mais do que perfeitamente selecionado. Excepcionalmente, claro, à Thiago Mendonça que com excelência fez o papel do mestre...

Quando Renato dizia que a "verdadeira Legião Urbana" somos nós, jamais pensei o peso que isso teria. Nos versos de Química, Tédio (Com Um T Bem Grande Pra Você), Fátima e Veraneio Vascaína - nota-se portanto as músicas de inicio da carreira, do punk e relação Aborto-Capital-Legião, que vi que esta geração existe, quando outros também cantavam baixinho. O filme foi o que imaginava, não deixando à perder em nenhum ponto e nem melhor do que imaginei que seria - apesar de ainda achar que poderiam ter pensado mais na relação Legião Urbana.

Renato deve ter ficado feliz, me senti feliz ao ver um grandioso trabalho feito à este nível.
Renato, com toda a certeza, foi mais do que bem homenageado.


(O blogueiro e dono do artigo, em momento algum se põe no lugar de crítico cinematográfico ou qualquer coisa do gênero. Coloca apenas sua opinião como um leitor das obras baseadas na vida de Renato, ouvinte da banda e principalmente administrador da página que teve por inicio, a análise musical da mesma).

Texto de Eduardo Rezende. 


Acho curiosa a forma com que as bandas brasileiras retratam a sociedade.
Nem sempre falam sobre si, e nem sempre falam sobre seu meio. Legião Urbana tinha o dom impecável de transmitir a realidade e criar personagens para transpassar a ideia contida em uma música. Ora simples, ora complexa, as músicas chegam e nos passam morais de personagens vistos ou inventados ou até mesmo vividos.
Engenheiros do Hawaii conseguem passar a moral embutida na política. Com críticas acirradas ao sistema capitalista e com leves tendênciais socialistas e as vezes o oposto e as vezes mais do que o oposto, passam morais andando junto à criticidade de um sistema e não de uma cultura (como a Legião Urbana), nem de uma fase (como Chico Buarque) ou de atitudes (como Pitty e Capital Inicial). Como tudo tem seus dois lados, Engenheiros conseguem tratar além das críticas, o sentimentalismo. Segue-se abaixo uma das minhas preferidas quando o assunto é crítica na voz de Gessinger.


Gessinger começa sua letra dizendo que presta atenção à tudo o que eles (esta terceira pessoa do plural, se referindo aos poderosos), dizem, mas eles não dizem nada.
Menciona Fidel (Fidel Castro, o revolucionário cubano) e Pinochet (Augusto Pinochet, ditador cubano), tiram sarro desta geração que não se rebela contra injustiças, que não faz nada para a melhor, não muda suas escolhas e tão pouco os rumos e passos lentos de revolução do seu país.
Aos poucos, a alienação se torna tão grande e a acomodação se torna tão normal, que é normal inclusive, crer que seja simples um boçal atirar bombas na embaixada, achar normal pessoas ignorantes fazendo a revolução armada. Toda a forma de poder é uma forma de morrer por nada, a frase que resume exatamente o que a música quer retratar. A frase que diz exatamente o que acontece desde a esquerda extrema até a direita extrema, mesmo quando não houver poder, haverão poderosos, que farão os ouros morrerem para não perder o que têm, e eis que surge todos os movimentos políticos, porque toda a forma de conduta se transforma numa luta armada. Jamais irá se agradar à todos e a tudo.
O pior é saber que tudo isso acontece. Que todas as revoluções poderiam ser feitas, e todas as greves e vozes capazes, poderiam mudar tudo. Se saíssem da teoria e se unisse à prática, mas a "história se repete e a força deixa a história mal contada", os problemas sempre se repetem, e a ganância, o orgulho e o desejo de ser mais sempre falarão mais alto, e o mesmo fracasso se repete por páginas e páginas desbotadas ou com sangue.
Os últimos versos falam por si, tal como a letra toda, que além de ser bem estruturada, consegue passar sua crítica apenas se contendo à uma interpretação, digna apenas de uma análise superficial.

"E o fascismo é fascinante deixa a gente ignorante e fascinada.
É tão fácil ir adiante e se esquecer que a coisa toda tá errada.
Eu presto atenção no que eles dizem mas eles não dizem nada".

Claramente, a letra mostra que através das propagandas fascistas, o modo de governo se torna fascinante e deixa as pessoas em fascínio pelo fascismo, e é tão fácil esquecer o que acontece e ir adiante, pular etapas e não pensar que o esquema político (não apenas do fascismo, mas de toda a forma de poder, que é uma forma de morrer por nada) e o cenário estão errados, mas não resolve, pois tentamos achar pistas, tentamos fazer a revolução, e por mais que tentamos não conseguimos. Tentamos entender o erro e trazer pra nós a essência dos problemas, vendo fatos e analisando corretamente, tentando fazer a revolução... Tentamos nos esforçar para crer na política, para achar a solução... Prestamos atenção ao que eles dizem, mas eles não dizem nada...

"Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer..."

Eduardo Rezende, texto e interpretação.